Sobre a Deficiência Visual

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Sobre a Deficiência Visual
 

O que é ser cego

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
 

Segundo o "Dicionário da Língua Portuguesa" de Aurélio Buarque de Hollanda, cego é aquele que está privado momentânea ou permanentemente da visão. Esta é, no entanto, uma definição simplória. Quando entramos num túnel ou num cinema ou em qualquer outro ambiente onde o nível de iluminação seja insuficiente para o ponto de ajuste em que se encontram os nossos olhos, ficamos privados momentaneamente da visão, mesmo que os nossos olhos sejam perfeitos. O mesmo acontece quando alguém dirige um facho luminoso de grande intensidade contra  nós, deixando-nos ofuscados. Na verdade, há uma enorme diferença entre ser ou estar cego.

Quando se está cego, o corpo e a mente não assumem essa condição e o nível de adaptação é ínfimo. Quando se está cego, tanto o corpo como a psique do ser humano aguardam a volta da visão. Suponhamos que o vidro de um automóvel que vai à nossa frente passe a reflectir o sol. No primeiro instante, deixamos de enxergar e todas as nossas reacções tornam-se típicas de quem está aguardando a volta da capacidade de ver: tampam-se os olhos, estaciona-se o carro no acostamento etc. Em outros casos, quando há uma breve lesão como quando nos queimamos ou temos algum trauma de córnea ou retina, a sensação de desprotecção e insegurança torna-se ainda maior. Continua-se, entretanto, a estar em um estado de espera de que as coisas voltem ao normal e que a vida retome o seu curso.

Mesmo que a lesão seja permanente e que a probabilidade de se voltar a enxergar seja irrisória, logo que se perde a visão o estado de espera se configura. Isso decorre do facto de que não ver é uma situação anormal para quem sempre viu.  Esse estado de espera permanece por mais ou menos tempo em função da flexibilidade de cada um em aceitar novas situações. Essa flexibilidade não tem absolutamente nada a ver com conformismo ou mesmo com fatalismo. Tem, sim, a ver com a forma com que a psique de cada um impele a pessoa a enfrentar novos desafios.

Uma nova invenção, por exemplo, pode tornar-nos deficientes em termos culturais. Os empregados em selarias tornaram-se socialmente deficientes com a invenção do automóvel. Alguns permaneceram nessa condição momentaneamente, até que o aprendizado de um novo ofício os reabilitou. Outros, pelo contrário, ficaram socialmente deficientes pelo resto de suas vidas. Em outras palavras, se o indivíduo não for apto a enfrentar novas situações, o estado de espera poderá prolongar-se indefinidamente, até à sua morte, em alguns casos.

Quando se é cego, o corpo e a mente já se adaptaram à nova condição e passou-se a criar meios para que a deficiência seja suprida de alguma forma. Se não se pode continuar a exercer a mesma profissão, já se encontrou outra para se desenvolver. Por outro lado, se ainda se pode exercê-la, os métodos já estarão adaptados ao facto de que o indivíduo não exerça. Houve casos em que pilotos internacionais de aviões perderam a visão em acidentes, o que os impediu de continuar voando. Assim, alguns deles resolveram aproveitar suas capacidades anteriores, tornando-se professores de Geografia ou mesmo passaram a trabalhar em empresas de turismo, planejando escalas de voo. Em outros casos, quando exercer a profissão é uma simples questão de adaptar os instrumentos, temos como exemplo os dos mecânicos de automóveis que transformaram paquímetros, micrómetros e manómetros para a leitura em braille. Resumindo, há pessoas que, pelo facto de serem cegas, são menos deficientes que outras que, por continuarem a esperar a cura, estão cegas.

Em alguns países há uma preocupação dos legisladores quanto aos benefícios que a sociedade concederá aos deficientes em geral e aos portadores de deficiências visuais em particular. É bom que se entenda que nem só os cegos são portadores de deficiências visuais. Nesse grupo enquadram-se todos os que, para possuir uma visão normal, dependem de equipamentos ou mesmo de sinalização adequada. Assim, pertencem ao grupo todos os que precisam de usar óculos, lentes de contacto, tele-lupas etc. Há ainda outros deficientes que não podem contar com esse tipo de auxílio, precisando de condições especiais de tráfego ou mesmo de trabalho, como os daltónicos que, por não poderem ver cores necessitam de que todos os sinais de trânsito de sua cidade tenham as luzes coloridas sempre na mesma posição para que, dessa forma, ele se oriente. Por causa dessa preocupação, países como os Estados Unidos, Japão e, principalmente a Inglaterra, contam com definições legais para a terminologia empregada. No caso dos Estados Unidos que conhecemos bem, há os totalmente cegos e os legalmente cegos. No primeiro caso, enquadram-se todos os incapazes de distinguir a presença de luz, enquanto que, no segundo grupo, encontram-se os que não possuem visão suficiente para desenvolver visualmente actividades básicas como ler ou caminhar.

No Brasil não existem definições legais para o problema, mas há uma terminologia aceite pelos mais diversos institutos. Assim, cegos são os incapazes de ver qualquer coisa, enquanto àqueles cuja visão é tão reduzida que impossibilite a leitura com letras de tamanho normal, ou mesmo que não possam caminhar sem o auxílio de aparelhos especiais, chamamos de amblíopes ou, como é moda dizer, portadores de visão subnormal.

O leitor deve estar se perguntando: "Por que tanta conversa? Por que não entramos logo no assunto?" Ocorre que um treinador de cão-guia é, antes de tudo, um profissional de reabilitação. Se ele não entender como os cegos agem e pensam, como é que ele poderá desempenhar suas funções condignamente? Peço pois um pouco de paciência e que o leitor preste muita atenção nos quatro próximos capítulos porque deles dependem o entendimento do tema como um conjunto.

A cegueira nunca é escuridão

A maior parte das pessoas pensa que a cegueira se manifesta como uma escuridão eterna. Ocorre que há os que nasceram cegos, os que perderam a visão muito cedo e os que deixaram de ver numa idade em que o cérebro já estava condicionado à ideia visual da realidade.

No primeiro caso - muito raro, por sinal - a cegueira não poderia jamais constituir escuridão pelo simples facto de que o escuro é a ausência da luz. Se o indivíduo é cego de nascença, ele nunca viu a luz, portanto, não possui ideia do que seja o escuro.

O mesmo acontece quando se perde a visão antes dos cinco anos de idade, quando o cérebro ainda não está adaptado ao mundo das imagens e das cores. Quando o problema é esse, após algumas semanas da perda da visão, a criança já se comporta como se nunca tivesse enxergado. Pouco a pouco, a realidade torna-se auditiva, táctil e aromática e a noção da luz e das cores apaga-se da memória.

No terceiro caso, há o que passou a chamar-se "cegueira branca". O cérebro está tão habituado a criar imagens que nunca mais deixa de fazê-las. A falta de visão, nesses casos, pode ser substituída psicologicamente por manchas ou mesmo imagens que os acompanham pelo resto da vida. Trata-se de imagens permanentes [...]. Trata-se tão somente de uma tentativa da mente de suprir a falta do montante de informações que costumava entrar no cérebro através dos olhos. Compreendemos que seja muito difícil para um vidente entender semelhante experiência. Assim, vamo-nos alongar um pouco nessa explicação.

Oitenta por cento do que conhecemos chegou à nossa memória pelos olhos. É justamente por isso que os analfabetos tendem a só entender o que são capazes de enxergar. A visão para eles tem apenas a conotação física e não simbólica que adquirimos com a leitura. Assim, quando lemos dinamicamente, as ideias que retemos têm, muitas vezes, uma materialização psicológica que lembra as páginas de um livro. Isso ocorre com muito mais gravidade quando o que aprendemos vem através de audiovisuais e por simples interpretação visual da realidade. Ora, quando a visão cessa, passa a existir, na mente, uma grande falta de informações que dão uma sensação de vazio que faz com que as manchas e imagens pré fabricadas venham a suprir.

Essas imagens são relativamente independentes da realidade. Elas são presas à segunda pelas situações porque tendemos a formá-las a partir do que nos acontece. Em outras palavras, quando entramos em uma sala, imaginamo-la como uma sala, muito embora a sala que imaginemos não seja sequer próxima daquelq em que entramos. Mesmo assim, há um quê de muito real nas imagens, posto que elas são fruto da memória visual que nos acompanha. A "cegueira branca" dá ao deficiente base para gostar ou não das formas de um automóvel, mesmo que ele seja grande demais para que o sintamos todo de uma só vez pelo tacto. Além disso, ela faculta-nos construir mentalmente um todo a partir de pequenas áreas e esse todo no visual em termos de raciocínio.

Recentemente, estive treinando um rapaz de aproximadamente vinte e oito anos no uso de sintetizadores de voz em computadores. Fazia dois anos que ele tinha perdido a visão. Em um dado momento notei que ele estava muito calado. Perguntei-lhe então: "São as manchas que o estão incomodando?" Espantado ele me respondeu: "Como é que você sabe?" Retruquei: "É que elas quase me deixaram louco quando perdi a visão. Eram como letras de jornal que se embaralhavam o tempo todo, sem formar uma só palavra. Em outros momentos eram rostos, geralmente azuis, que se transmudavam numa velocidade incrível. "Elas desapareceram?" Perguntou ele. "Não, mas eu me acostumei com elas e sei perfeitamente que são associadas a meu estado psicológico" respondi. "Quando estou calmo elas assumem cores agradáveis e pouco contrastantes. Se estou ansioso, tornam-se muito mais mutáveis e de cores berrantes."

Todos nós temos o hábito de pensar que somos os únicos a passar pelas experiências mais corriqueiras: o primeiro beijo, o primeiro contacto com a morte e outras. Assim agimos quando um dos nossos sentidos se vai. Pensamos por algum tempo que somos os únicos cegos ou surdos do mundo e que essa prova é inédita. O simples facto de sermos obrigados a perceber que outras pessoas já conhecem aquilo pelo que passamos é um choque quase tão grande quanto a perda em si. Tenho a certeza de que, passado o choque, nosso diálogo ajudou-o a compreender melhor a si mesmo e a sua nova situação. Esse pseudo egocentrismo ficou ainda mais evidente em outra ocasião.

Estava mostrando a um outro cego recente um ábaco adaptado onde, além de fazer contas, marco pequenos números para depois os transferir para o banco de dados. Bati com o instrumento no tampo da mesa para que ele pudesse se guiar pelo som e tomá-lo de minha mão. Ele, porém, ficou de mão estendida e resmungou: "Ponha aqui na minha mão!" Com o consciente intuito de chocá-lo respondi: "Meu amigo, será que você não percebeu que eu sou tão cego quanto você?" Até àquele momento seu cérebro estava fazendo uma imagem na qual ele estendia a mão e eu lhe entregava o objecto imediatamente. Esse quadro, porém, não condizia com a realidade e ele sequer pensou em interpretar o código sonoro que eu fazia, batendo com o ábaco na mesa.

Não conheço nenhum estudo científico que comprove o que vou relatar neste e no próximo parágrafo. Tenho, porém, uma convicção, pelo menos uma crença baseada numa relativamente grande sucessão de factos. Nos últimos três anos tenho lidado com um número crescente de portadores de retinose pigmentar. Não é que haja uma maior incidência dessa doença, mas é que seu entendimento é relativamente recente, vindo mesmo a constituir uma nova especialidade médica dentro da oftalmologia: a retinologia. Percebi que seu comportamento, perante a falta de visão, é radicalmente  diferente dos demais cegos.

Nossos olhos não enviam imagens para o cérebro. O que eles transmitem não passa de um conjunto de pontos coloridos ou preto-e-branco. A imagem em si é construída pelo cérebro que, por analogia, reconhece as formas e as interpreta. Eis por que as crianças tendem a ter muito mais ilusões de óptica do que os adultos. Ocorre que, por falta de experiência, elas interpretam o seu mosaico de luzes de acordo com sua imaginação, errando frequentemente.

Não sou médico. Assim, não posso descrever a fundo o que é essa doença. Sei, no entanto, que o seu efeito sobre a visão corresponde à queda de algumas pastilhas do mosaico, levando o cérebro a um trabalho ainda maior de interpretação. Os portadores de retinose pigmentar geralmente não percebem a evolução de seu mal. Em geral, são as pessoas que os cercam que notam que algo está errado e as induzem a procurar um médico.  Ocorre que a compensação intelectual falseia as imagens de tal sorte, que eles não percebam com clareza a sua deficiência. A capacidade do cérebro tem limites e um belo dia o indivíduo está cego sem se preparar para isso. É como se o número de pastilhas do mosaico se tornasse tão pequeno que excedesse a condição de deduzir a que o cérebro está acostumado. Alguns chegam a negar que estão cegos, tamanho é o grau de cegueira branca que possuem.

Repito que não há nada de científico no que descrevi. Penso que as premissas são tão verosímeis que se justificaria um trabalho multidisciplinar nas áreas de medicina, bio-engenharia e principalmente psicologia. O facto é que eles costumam ser muito mais refractários às técnicas de reabilitação.

Não se imagine, em hipótese alguma, que os portadores de "cegueira branca" tenham uma inteligência espacial mais desenvolvida do que os que nunca enxergaram. Apenas eles mantêm imagens em suas mentes, enquanto os demais contam com ideias tácteis sobre o mesmo objecto. Desde que se seja habilidoso o bastante com as palavras, é perfeitamente possível explicar-se a um cego de qualquer tipo como funciona uma máquina ou qualquer outro tipo de abstracção. Repetimos: desde que se seja habilidoso com as palavras.

Dedico este trabalho a quem nunca o lerá.
Dedico-o aos cães que entram em nossas vidas mansamente
e vão-nas enchendo de felicidade, até que não restem espaços vazios para
que nos ocupemos de coisas menos nobres. Dedico-o a eles que são bolinhas de
carinho quando nascem e símbolos eternos de amor e compaixão quando se vão.
Luíz Alberto


Autor: Luíz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Fonte: http://www.redespecialweb.org/ponencias2/carvalho.txt

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Publicado por MJA [26Mai07]

 

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