|
Sobre
a Deficiência Visual
|
|
Início |
Textos didácticos |
A Saúde dos Olhos |
Notícias |
Olhares sobre a cegueira |
Leis e Ajudas |
Contactos
|
|
|
³
Sobre a Deficiência
Visual
O que é ser cego
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Segundo o "Dicionário da Língua Portuguesa" de Aurélio Buarque de Hollanda,
cego é aquele que está privado momentânea ou permanentemente da visão. Esta é,
no entanto, uma definição simplória. Quando entramos num túnel ou num cinema ou
em qualquer outro ambiente onde o nível de iluminação seja insuficiente para o
ponto de ajuste em que se encontram os nossos olhos, ficamos privados
momentaneamente da visão, mesmo que os nossos olhos sejam perfeitos. O mesmo
acontece quando alguém dirige um facho luminoso de grande intensidade contra
nós, deixando-nos ofuscados. Na verdade, há uma enorme diferença entre ser ou
estar cego.
Quando se está cego, o corpo e a mente não assumem essa condição e o nível de
adaptação é ínfimo. Quando se está cego, tanto o corpo como a psique do ser
humano aguardam a volta da visão. Suponhamos que o vidro de um automóvel que vai
à nossa frente passe a reflectir o sol. No primeiro instante, deixamos de
enxergar e todas as nossas reacções tornam-se típicas de quem está aguardando a
volta da capacidade de ver: tampam-se os olhos, estaciona-se o carro no
acostamento etc. Em outros casos, quando há uma breve lesão como quando nos
queimamos ou temos algum trauma de córnea ou retina, a sensação de desprotecção
e insegurança torna-se ainda maior. Continua-se, entretanto, a estar em um
estado de espera de que as coisas voltem ao normal e que a vida retome o seu
curso.
Mesmo que a lesão seja permanente e que a probabilidade de se voltar a enxergar
seja irrisória, logo que se perde a visão o estado de espera se configura. Isso
decorre do facto de que não ver é uma situação anormal para quem sempre viu.
Esse estado de espera permanece por mais ou menos tempo em função da
flexibilidade de cada um em aceitar novas situações. Essa flexibilidade não tem
absolutamente nada a ver com conformismo ou mesmo com fatalismo. Tem, sim, a ver
com a forma com que a psique de cada um impele a pessoa a enfrentar novos
desafios.
Uma nova invenção, por exemplo, pode tornar-nos deficientes em termos
culturais. Os empregados em selarias tornaram-se socialmente deficientes com a
invenção do automóvel. Alguns permaneceram nessa condição momentaneamente, até
que o aprendizado de um novo ofício os reabilitou. Outros, pelo contrário,
ficaram socialmente deficientes pelo resto de suas vidas. Em outras palavras, se
o indivíduo não for apto a enfrentar novas situações, o estado de espera poderá
prolongar-se indefinidamente, até à sua morte, em alguns casos.
Quando se é cego, o corpo e a mente já se adaptaram à nova condição e passou-se
a criar meios para que a deficiência seja suprida de alguma forma. Se não se
pode continuar a exercer a mesma profissão, já se encontrou outra para se
desenvolver. Por outro lado, se ainda se pode exercê-la, os métodos já estarão
adaptados ao facto de que o indivíduo não exerça. Houve casos em que pilotos
internacionais de aviões perderam a visão em acidentes, o que os impediu de
continuar voando. Assim, alguns deles resolveram aproveitar suas capacidades
anteriores, tornando-se professores de Geografia ou mesmo passaram a trabalhar
em empresas de turismo, planejando escalas de voo. Em outros casos, quando
exercer a profissão é uma simples questão de adaptar os instrumentos, temos como
exemplo os dos mecânicos de automóveis que transformaram paquímetros,
micrómetros e manómetros para a leitura em braille. Resumindo, há pessoas que,
pelo facto de serem cegas, são menos deficientes que outras que, por continuarem
a esperar a
cura, estão cegas.
Em alguns países há uma preocupação dos legisladores quanto aos benefícios que a
sociedade concederá aos deficientes em geral e aos portadores de deficiências
visuais em particular. É bom que se entenda que nem só os cegos são portadores
de deficiências visuais. Nesse grupo enquadram-se todos os que, para possuir uma
visão normal, dependem de equipamentos ou mesmo de sinalização adequada. Assim,
pertencem ao grupo todos os que precisam de usar óculos, lentes de contacto, tele-lupas etc. Há ainda outros deficientes que não podem contar com esse tipo
de auxílio, precisando de condições especiais de tráfego ou mesmo de trabalho,
como os daltónicos que, por não poderem ver cores necessitam de que todos os
sinais de trânsito de sua cidade tenham as luzes coloridas sempre na mesma
posição para que, dessa forma, ele se oriente. Por causa dessa preocupação,
países como os Estados Unidos, Japão e, principalmente a Inglaterra, contam com
definições legais para a terminologia empregada. No caso dos Estados Unidos que
conhecemos bem, há os totalmente cegos e os legalmente cegos. No primeiro caso,
enquadram-se todos os incapazes de distinguir a presença de luz, enquanto que,
no segundo grupo, encontram-se os que não possuem visão suficiente para
desenvolver visualmente actividades básicas como ler ou caminhar.
No Brasil não existem definições legais para o problema, mas há uma terminologia
aceite pelos mais diversos institutos. Assim, cegos são os incapazes de ver
qualquer coisa, enquanto àqueles cuja visão é tão reduzida que impossibilite a
leitura com letras de tamanho normal, ou mesmo que não possam caminhar sem o
auxílio de aparelhos especiais, chamamos de amblíopes ou, como é moda dizer,
portadores de visão subnormal.
O leitor deve estar se perguntando: "Por que tanta conversa? Por que não
entramos logo no assunto?" Ocorre que um treinador de cão-guia é, antes de tudo,
um profissional de reabilitação. Se ele não entender como os cegos agem e
pensam, como é que ele poderá desempenhar suas funções condignamente? Peço pois
um pouco de paciência e que o leitor preste muita atenção nos quatro próximos
capítulos porque deles dependem o entendimento do tema como um conjunto.
A cegueira nunca é escuridão
A maior parte das pessoas pensa que a cegueira se manifesta como uma escuridão
eterna. Ocorre que há os que nasceram cegos, os que perderam a visão muito cedo
e os que deixaram de ver numa idade em que o cérebro já estava
condicionado à ideia visual da realidade.
No primeiro caso - muito raro, por sinal - a cegueira não poderia jamais constituir escuridão pelo simples facto de que o escuro é a ausência da luz.
Se o indivíduo é cego de nascença, ele nunca viu a luz, portanto, não possui
ideia do que seja o escuro.
O mesmo acontece quando se perde a visão antes dos
cinco anos de idade, quando o cérebro ainda não está adaptado ao mundo das
imagens e das cores. Quando o problema é esse, após algumas semanas da perda da
visão, a criança já se comporta como se nunca tivesse enxergado. Pouco a pouco,
a realidade torna-se auditiva, táctil e aromática e a noção da luz e das cores apaga-se da memória.
No terceiro caso, há o que passou a chamar-se "cegueira branca". O cérebro
está tão habituado a criar imagens que nunca mais deixa de fazê-las. A falta de
visão, nesses casos, pode ser substituída psicologicamente por manchas ou mesmo
imagens que os acompanham pelo resto da vida. Trata-se de imagens permanentes
[...]. Trata-se tão somente de uma tentativa da mente de suprir a
falta do montante de informações que costumava entrar no cérebro através dos olhos.
Compreendemos que seja muito difícil para um vidente entender semelhante
experiência. Assim, vamo-nos alongar um pouco nessa explicação.
Oitenta por cento do que conhecemos chegou à nossa memória pelos olhos. É
justamente por isso que os analfabetos tendem a só entender o que são capazes de
enxergar. A visão para eles tem apenas a conotação física e não simbólica que
adquirimos com a leitura. Assim, quando lemos dinamicamente, as ideias que
retemos têm, muitas vezes, uma materialização psicológica que lembra as páginas
de um livro. Isso ocorre com muito mais gravidade quando o que aprendemos vem
através de audiovisuais e por simples interpretação visual da realidade. Ora,
quando a visão cessa, passa a existir, na mente, uma grande falta de informações
que dão uma sensação de vazio que faz com que as manchas e imagens pré
fabricadas venham a suprir.
Essas imagens são relativamente independentes da realidade. Elas são presas à
segunda pelas situações porque tendemos a formá-las a partir do que nos
acontece. Em outras palavras, quando entramos em uma sala, imaginamo-la como uma
sala, muito embora a sala que imaginemos não seja sequer próxima daquelq em que
entramos. Mesmo assim, há um quê de muito real nas imagens, posto que elas são
fruto da memória visual que nos acompanha. A "cegueira branca" dá ao deficiente
base para gostar ou não das formas de um automóvel, mesmo que ele seja grande
demais para que o sintamos todo de uma só vez pelo tacto. Além disso, ela faculta-nos
construir mentalmente um todo a partir de pequenas áreas e esse todo no
visual em termos de raciocínio.
Recentemente, estive treinando um rapaz de aproximadamente vinte e oito anos no
uso de sintetizadores de voz em computadores. Fazia dois anos que ele tinha
perdido a visão. Em um dado momento notei que ele estava muito calado.
Perguntei-lhe então: "São as manchas que o estão incomodando?" Espantado ele me
respondeu: "Como é que você sabe?" Retruquei: "É que elas quase me deixaram
louco quando perdi a visão. Eram como letras de jornal que se embaralhavam o
tempo todo, sem formar uma só palavra. Em outros momentos eram rostos,
geralmente azuis, que se transmudavam numa velocidade incrível. "Elas desapareceram?" Perguntou ele.
"Não, mas eu me acostumei com elas e sei perfeitamente que são associadas a meu
estado psicológico" respondi. "Quando estou calmo elas assumem cores
agradáveis e pouco contrastantes. Se estou ansioso, tornam-se muito mais
mutáveis e de cores berrantes."
Todos nós temos o hábito de pensar que somos os únicos a passar pelas
experiências mais corriqueiras: o primeiro beijo, o primeiro contacto com a morte
e outras. Assim agimos quando um dos nossos sentidos se vai. Pensamos por algum
tempo que somos os únicos cegos ou surdos do mundo e que essa prova é inédita. O
simples facto de sermos obrigados a perceber que outras pessoas já conhecem
aquilo
pelo que passamos é um choque quase tão grande quanto a perda em si. Tenho
a certeza de que, passado o choque, nosso diálogo ajudou-o a compreender melhor a
si mesmo e a sua nova situação. Esse pseudo egocentrismo ficou ainda mais
evidente em outra ocasião.
Estava mostrando a um outro cego recente um ábaco adaptado onde, além de fazer
contas, marco pequenos números para depois os transferir para o banco de dados.
Bati com o instrumento no tampo da mesa para que ele pudesse se guiar pelo som e
tomá-lo de minha mão. Ele, porém, ficou de mão estendida e resmungou: "Ponha
aqui na minha mão!" Com o consciente intuito de chocá-lo respondi: "Meu amigo,
será que você não percebeu que eu sou tão cego quanto você?" Até àquele momento
seu cérebro estava fazendo uma imagem na qual ele estendia a mão e eu lhe entregava
o objecto imediatamente. Esse quadro, porém, não condizia com a realidade e ele
sequer pensou em interpretar o código sonoro que eu fazia, batendo com o ábaco na
mesa.
Não conheço nenhum estudo científico que comprove o que vou relatar neste e no
próximo parágrafo. Tenho, porém, uma convicção, pelo menos uma crença
baseada numa relativamente grande sucessão de factos. Nos últimos três anos
tenho lidado com um número crescente de portadores de retinose pigmentar. Não é
que haja uma maior incidência dessa doença, mas é que seu entendimento é
relativamente recente, vindo mesmo a constituir uma nova especialidade médica
dentro da oftalmologia: a retinologia. Percebi que seu comportamento, perante a
falta de visão, é radicalmente diferente dos demais cegos.
Nossos olhos não enviam imagens para o cérebro. O que eles transmitem não passa
de um conjunto de pontos coloridos ou preto-e-branco. A imagem em si é
construída pelo cérebro que, por analogia, reconhece as formas e as interpreta.
Eis por que as crianças tendem a ter muito mais ilusões de óptica do que os
adultos. Ocorre que, por falta de experiência, elas interpretam o seu mosaico de
luzes de acordo com sua imaginação, errando frequentemente.
Não sou médico. Assim, não posso descrever a fundo o que é essa doença. Sei, no
entanto, que o seu efeito sobre a visão corresponde à queda de algumas pastilhas
do mosaico, levando o cérebro a um trabalho ainda maior de interpretação. Os
portadores de retinose pigmentar geralmente não percebem a evolução de seu mal.
Em geral, são as pessoas que os cercam que notam que algo está errado e as
induzem a procurar um médico. Ocorre que a compensação intelectual falseia
as imagens de tal sorte, que eles não percebam com clareza a sua deficiência. A
capacidade do cérebro tem limites e um belo dia o indivíduo está cego sem se
preparar para isso. É como se o número de pastilhas do mosaico se tornasse tão
pequeno que excedesse a condição de deduzir a que o cérebro está acostumado.
Alguns chegam a negar que estão cegos, tamanho é o grau de cegueira branca que
possuem.
Repito que não há nada de científico no que descrevi. Penso que as premissas são
tão verosímeis que se justificaria um trabalho multidisciplinar nas áreas de medicina,
bio-engenharia e principalmente psicologia. O facto é que eles costumam ser
muito mais refractários às técnicas de reabilitação.
Não se imagine, em hipótese alguma, que os portadores de "cegueira branca"
tenham uma inteligência espacial mais desenvolvida do que os que nunca
enxergaram. Apenas eles mantêm imagens em suas mentes, enquanto os demais contam
com ideias tácteis sobre o mesmo objecto. Desde que se seja habilidoso o
bastante com as palavras, é perfeitamente possível explicar-se a um cego de
qualquer tipo como funciona uma máquina ou qualquer outro tipo de abstracção.
Repetimos: desde que se seja habilidoso com as palavras.
Dedico este trabalho a quem nunca o lerá.
Dedico-o aos cães que entram em
nossas vidas mansamente
e vão-nas enchendo de felicidade, até que não restem
espaços vazios para
que nos ocupemos de coisas menos nobres. Dedico-o a eles que
são bolinhas de
carinho quando nascem e símbolos eternos de amor e compaixão quando se vão.
Luíz Alberto
Autor: Luíz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Fonte:
http://www.redespecialweb.org/ponencias2/carvalho.txt
ã
Publicado por
MJA
[26Mai07]
|
|
Início |
Textos didácticos |
A Saúde dos Olhos |
Notícias |
Olhares sobre a cegueira |
Leis e Ajudas |
Contactos
|
|