Sobre a Deficiência Visual

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O que é ser cego


Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

 

Segundo o "Dicionário da Língua Portuguesa" de Aurélio Buarque de Hollanda, cego é aquele que está privado momentânea ou permanentemente da visão. Esta é, no entanto, uma definição simplória. Quando entramos num túnel ou num cinema ou em qualquer outro ambiente onde o nível de iluminação seja insuficiente para o ponto de ajuste em que se encontram os nossos olhos, ficamos privados momentaneamente da visão, mesmo que os nossos olhos sejam perfeitos. O mesmo acontece quando alguém dirige um facho luminoso de grande intensidade contra  nós, deixando-nos ofuscados. Na verdade, há uma enorme diferença entre ser ou estar cego.

Quando se está cego, o corpo e a mente não assumem essa condição e o nível de adaptação é ínfimo. Quando se está cego, tanto o corpo como a psique do ser humano aguardam a volta da visão. Suponhamos que o vidro de um automóvel que vai à nossa frente passe a reflectir o sol. No primeiro instante, deixamos de enxergar e todas as nossas reacções tornam-se típicas de quem está aguardando a volta da capacidade de ver: tampam-se os olhos, estaciona-se o carro no acostamento etc. Em outros casos, quando há uma breve lesão como quando nos queimamos ou temos algum trauma de córnea ou retina, a sensação de desprotecção e insegurança torna-se ainda maior. Continua-se, entretanto, a estar em um estado de espera de que as coisas voltem ao normal e que a vida retome o seu curso.

Mesmo que a lesão seja permanente e que a probabilidade de se voltar a enxergar seja irrisória, logo que se perde a visão o estado de espera se configura. Isso decorre do facto de que não ver é uma situação anormal para quem sempre viu.  Esse estado de espera permanece por mais ou menos tempo em função da flexibilidade de cada um em aceitar novas situações. Essa flexibilidade não tem absolutamente nada a ver com conformismo ou mesmo com fatalismo. Tem, sim, a ver com a forma com que a psique de cada um impele a pessoa a enfrentar novos desafios.

Uma nova invenção, por exemplo, pode tornar-nos deficientes em termos culturais. Os empregados em selarias tornaram-se socialmente deficientes com a invenção do automóvel. Alguns permaneceram nessa condição momentaneamente, até que o aprendizado de um novo ofício os reabilitou. Outros, pelo contrário, ficaram socialmente deficientes pelo resto de suas vidas. Em outras palavras, se o indivíduo não for apto a enfrentar novas situações, o estado de espera poderá prolongar-se indefinidamente, até à sua morte, em alguns casos.

Quando se é cego, o corpo e a mente já se adaptaram à nova condição e passou-se a criar meios para que a deficiência seja suprida de alguma forma. Se não se pode continuar a exercer a mesma profissão, já se encontrou outra para se desenvolver. Por outro lado, se ainda se pode exercê-la, os métodos já estarão adaptados ao facto de que o indivíduo não exerça. Houve casos em que pilotos internacionais de aviões perderam a visão em acidentes, o que os impediu de continuar voando. Assim, alguns deles resolveram aproveitar suas capacidades anteriores, tornando-se professores de Geografia ou mesmo passaram a trabalhar em empresas de turismo, planejando escalas de voo. Em outros casos, quando exercer a profissão é uma simples questão de adaptar os instrumentos, temos como exemplo os dos mecânicos de automóveis que transformaram paquímetros, micrómetros e manómetros para a leitura em braille. Resumindo, há pessoas que, pelo facto de serem cegas, são menos deficientes que outras que, por continuarem a esperar a cura, estão cegas.

Em alguns países há uma preocupação dos legisladores quanto aos benefícios que a sociedade concederá aos deficientes em geral e aos portadores de deficiências visuais em particular. É bom que se entenda que nem só os cegos são portadores de deficiências visuais. Nesse grupo enquadram-se todos os que, para possuir uma visão normal, dependem de equipamentos ou mesmo de sinalização adequada. Assim, pertencem ao grupo todos os que precisam de usar óculos, lentes de contacto, tele-lupas etc. Há ainda outros deficientes que não podem contar com esse tipo de auxílio, precisando de condições especiais de tráfego ou mesmo de trabalho, como os daltónicos que, por não poderem ver cores necessitam de que todos os sinais de trânsito de sua cidade tenham as luzes coloridas sempre na mesma posição para que, dessa forma, ele se oriente. Por causa dessa preocupação, países como os Estados Unidos, Japão e, principalmente a Inglaterra, contam com definições legais para a terminologia empregada. No caso dos Estados Unidos que conhecemos bem, há os totalmente cegos e os legalmente cegos. No primeiro caso, enquadram-se todos os incapazes de distinguir a presença de luz, enquanto que, no segundo grupo, encontram-se os que não possuem visão suficiente para desenvolver visualmente actividades básicas como ler ou caminhar.

No Brasil não existem definições legais para o problema, mas há uma terminologia aceite pelos mais diversos institutos. Assim, cegos são os incapazes de ver qualquer coisa, enquanto àqueles cuja visão é tão reduzida que impossibilite a leitura com letras de tamanho normal, ou mesmo que não possam caminhar sem o auxílio de aparelhos especiais, chamamos de amblíopes ou, como é moda dizer, portadores de visão subnormal.

O leitor deve estar se perguntando: "Por que tanta conversa? Por que não entramos logo no assunto?" Ocorre que um treinador de cão-guia é, antes de tudo, um profissional de reabilitação. Se ele não entender como os cegos agem e pensam, como é que ele poderá desempenhar suas funções condignamente? Peço pois um pouco de paciência e que o leitor preste muita atenção nos quatro próximos capítulos porque deles dependem o entendimento do tema como um conjunto.


A cegueira nunca é escuridão

A maior parte das pessoas pensa que a cegueira se manifesta como uma escuridão eterna. Ocorre que há os que nasceram cegos, os que perderam a visão muito cedo e os que deixaram de ver numa idade em que o cérebro já estava condicionado à ideia visual da realidade.

No primeiro caso - muito raro, por sinal - a cegueira não poderia jamais constituir escuridão pelo simples facto de que o escuro é a ausência da luz. Se o indivíduo é cego de nascença, ele nunca viu a luz, portanto, não possui ideia do que seja o escuro.

O mesmo acontece quando se perde a visão antes dos cinco anos de idade, quando o cérebro ainda não está adaptado ao mundo das imagens e das cores. Quando o problema é esse, após algumas semanas da perda da visão, a criança já se comporta como se nunca tivesse enxergado. Pouco a pouco, a realidade torna-se auditiva, táctil e aromática e a noção da luz e das cores apaga-se da memória.

No terceiro caso, há o que passou a chamar-se "cegueira branca". O cérebro está tão habituado a criar imagens que nunca mais deixa de fazê-las. A falta de visão, nesses casos, pode ser substituída psicologicamente por manchas ou mesmo imagens que os acompanham pelo resto da vida. Trata-se de imagens permanentes [...]. Trata-se tão somente de uma tentativa da mente de suprir a falta do montante de informações que costumava entrar no cérebro através dos olhos. Compreendemos que seja muito difícil para um vidente entender semelhante experiência. Assim, vamo-nos alongar um pouco nessa explicação.

Oitenta por cento do que conhecemos chegou à nossa memória pelos olhos. É justamente por isso que os analfabetos tendem a só entender o que são capazes de enxergar. A visão para eles tem apenas a conotação física e não simbólica que adquirimos com a leitura. Assim, quando lemos dinamicamente, as ideias que retemos têm, muitas vezes, uma materialização psicológica que lembra as páginas de um livro. Isso ocorre com muito mais gravidade quando o que aprendemos vem através de audiovisuais e por simples interpretação visual da realidade. Ora, quando a visão cessa, passa a existir, na mente, uma grande falta de informações que dão uma sensação de vazio que faz com que as manchas e imagens pré fabricadas venham a suprir.

Essas imagens são relativamente independentes da realidade. Elas são presas à segunda pelas situações porque tendemos a formá-las a partir do que nos acontece. Em outras palavras, quando entramos em uma sala, imaginamo-la como uma sala, muito embora a sala que imaginemos não seja sequer próxima daquelq em que entramos. Mesmo assim, há um quê de muito real nas imagens, posto que elas são fruto da memória visual que nos acompanha. A "cegueira branca" dá ao deficiente base para gostar ou não das formas de um automóvel, mesmo que ele seja grande demais para que o sintamos todo de uma só vez pelo tacto. Além disso, ela faculta-nos construir mentalmente um todo a partir de pequenas áreas e esse todo no visual em termos de raciocínio.

Recentemente, estive treinando um rapaz de aproximadamente vinte e oito anos no uso de sintetizadores de voz em computadores. Fazia dois anos que ele tinha perdido a visão. Em um dado momento notei que ele estava muito calado. Perguntei-lhe então: "São as manchas que o estão incomodando?" Espantado ele me respondeu: "Como é que você sabe?" Retruquei: "É que elas quase me deixaram louco quando perdi a visão. Eram como letras de jornal que se embaralhavam o tempo todo, sem formar uma só palavra. Em outros momentos eram rostos, geralmente azuis, que se transmudavam numa velocidade incrível. "Elas desapareceram?" Perguntou ele. "Não, mas eu me acostumei com elas e sei perfeitamente que são associadas a meu estado psicológico" respondi. "Quando estou calmo elas assumem cores agradáveis e pouco contrastantes. Se estou ansioso, tornam-se muito mais mutáveis e de cores berrantes."

Todos nós temos o hábito de pensar que somos os únicos a passar pelas experiências mais corriqueiras: o primeiro beijo, o primeiro contacto com a morte e outras. Assim agimos quando um dos nossos sentidos se vai. Pensamos por algum tempo que somos os únicos cegos ou surdos do mundo e que essa prova é inédita. O simples facto de sermos obrigados a perceber que outras pessoas já conhecem aquilo pelo que passamos é um choque quase tão grande quanto a perda em si. Tenho a certeza de que, passado o choque, nosso diálogo ajudou-o a compreender melhor a si mesmo e a sua nova situação. Esse pseudo egocentrismo ficou ainda mais evidente em outra ocasião.

Estava mostrando a um outro cego recente um ábaco adaptado onde, além de fazer contas, marco pequenos números para depois os transferir para o banco de dados. Bati com o instrumento no tampo da mesa para que ele pudesse se guiar pelo som e tomá-lo de minha mão. Ele, porém, ficou de mão estendida e resmungou: "Ponha aqui na minha mão!" Com o consciente intuito de chocá-lo respondi: "Meu amigo, será que você não percebeu que eu sou tão cego quanto você?" Até àquele momento seu cérebro estava fazendo uma imagem na qual ele estendia a mão e eu lhe entregava o objecto imediatamente. Esse quadro, porém, não condizia com a realidade e ele sequer pensou em interpretar o código sonoro que eu fazia, batendo com o ábaco na mesa.

Não conheço nenhum estudo científico que comprove o que vou relatar neste e no próximo parágrafo. Tenho, porém, uma convicção, pelo menos uma crença baseada numa relativamente grande sucessão de factos. Nos últimos três anos tenho lidado com um número crescente de portadores de retinose pigmentar. Não é que haja uma maior incidência dessa doença, mas é que seu entendimento é relativamente recente, vindo mesmo a constituir uma nova especialidade médica dentro da oftalmologia: a retinologia. Percebi que seu comportamento, perante a falta de visão, é radicalmente  diferente dos demais cegos.

Nossos olhos não enviam imagens para o cérebro. O que eles transmitem não passa de um conjunto de pontos coloridos ou preto-e-branco. A imagem em si é construída pelo cérebro que, por analogia, reconhece as formas e as interpreta. Eis por que as crianças tendem a ter muito mais ilusões de óptica do que os adultos. Ocorre que, por falta de experiência, elas interpretam o seu mosaico de luzes de acordo com sua imaginação, errando frequentemente.

Não sou médico. Assim, não posso descrever a fundo o que é essa doença. Sei, no entanto, que o seu efeito sobre a visão corresponde à queda de algumas pastilhas do mosaico, levando o cérebro a um trabalho ainda maior de interpretação. Os portadores de retinose pigmentar geralmente não percebem a evolução de seu mal. Em geral, são as pessoas que os cercam que notam que algo está errado e as induzem a procurar um médico.  Ocorre que a compensação intelectual falseia as imagens de tal sorte, que eles não percebam com clareza a sua deficiência. A capacidade do cérebro tem limites e um belo dia o indivíduo está cego sem se preparar para isso. É como se o número de pastilhas do mosaico se tornasse tão pequeno que excedesse a condição de deduzir a que o cérebro está acostumado. Alguns chegam a negar que estão cegos, tamanho é o grau de cegueira branca que possuem.

Repito que não há nada de científico no que descrevi. Penso que as premissas são tão verosímeis que se justificaria um trabalho multidisciplinar nas áreas de medicina, bio-engenharia e principalmente psicologia. O facto é que eles costumam ser muito mais refractários às técnicas de reabilitação.

Não se imagine, em hipótese alguma, que os portadores de "cegueira branca" tenham uma inteligência espacial mais desenvolvida do que os que nunca enxergaram. Apenas eles mantêm imagens em suas mentes, enquanto os demais contam com ideias tácteis sobre o mesmo objecto. Desde que se seja habilidoso o bastante com as palavras, é perfeitamente possível explicar-se a um cego de qualquer tipo como funciona uma máquina ou qualquer outro tipo de abstracção. Repetimos: desde que se seja habilidoso com as palavras.


Os outros sentidos não compensam a falta de visão.

Criou-se na sociedade a idéia de que os cegos escutam mais que as outras pessoas, que os surdos enxergam melhor que os demais etc. Oxalá isso fosse verdade. Há, evidentemente, surdos que são míopes, assim como muitos cegos são total ou parcialmente surdos.

Não haveria o menor motivo para se pensar que exista uma lei biológica de compensação. O que existe é uma interpretação mais aguçada dos sentidos que restam aos deficientes sensoriais. Em outras palavras, um surdo depende muito mais de sua visão do que uma pessoa normal. Assim, é preciso que ele preste muito mais atenção às informações visuais que lhe chegam ao cérebro. É muito comum os surdos terem extrema dificuldade para dormir em lugares claros, bastando-lhes o nascer do Sol para substituir o despertador. Também parece que seu campo visual é maior que o nosso, muito embora isso se deva ao simples fato de que eles fazem uso intensivo de sua visão periférica. Mesmo assim, tudo o que dissermos a respeito dos surdos só terá valor se sua deficiência visual não for comprometedora. Caso contrário, seu comportamento será ainda mais diferenciado.

Da mesma forma, os cegos tendem a prestar uma atenção redobrada aos ruídos que os cercam, interpretado-os a um nível muito mais profundo que os videntes. Qualquer um pode notar isso. Quando há faltas de energia ou mesmo quando as luzes se apagam, todos nós tendemos a ouvir coisas que, no claro não nos chamam a atenção. Todos os barulhos parecem mais fortes e surgem outros de que não tomávamos conhecimento. Eis porque as crianças costumam ter medo do escuro. Quando se é cego, o que é distante é interpretado exclusivamente pelos sons.

O olfato também é de grande auxílio, quando se precisa compreender o que se passa à volta, sem que as coisas possam ser tocadas. Assim, um cego pode se orientar perfeitamente pelos odores que se emanam à sua volta, reconhecendo lugares e situações sem que se usem as mãos.

O tato é importantíssimo para qualquer pessoa e imprescindível para os cegos. Há muito mais do que sentirem-se as formas na interpretação tátil da realidade. Esse sentido se divide em dois grupos: as sensações mecânicas e as térmicas. As primeiras se referem ao analisar das formas e das texturas e mesmo dos movimentos como o do vento, por exemplo. Uma coisa que poucos videntes imaginam é que os cegos passam o tempo todo sentindo coisas absolutamente corriqueiras aos que enxergam. Um bom exemplo disso é que eles passam a vida sentindo o contato das roupas, dos móveis onde estão sentados ou deitados etc. As sensações térmicas, como o nome diz, referem-se à noção de frio e quente. Ocorre que se trata de uma medida relativa para os terminais nervosos, de sorte que se passarmos alguns minutos segurando um objeto retirado de um freeser, sentiremos morna a água gelada. Assim, trata-se de uma noção relativa ao estado geral do meio ambiente. Os cegos a usam para distinguir caminhos, através do diferencial de temperatura do vento, se se está ao ar livre e outras situações.

O sentido mecânico do tato também ajuda a distinguir o local onde se está. Um cego dificilmente tropeça em uma sarjeta porque, em as ruas sendo ligeiramente abauladas, a inclinação do piso dá a perfeita sensação de se estar chegando a uma calçada. Outro uso é o de reconhecer o local pela textura do piso. Em outras palavras, o deficiente percebe que está chegando em determinada área porque conhece a rugosidade do solo. Assim, usar sapatos novos ou de sola muito grossa pode confundir um deficiente visual. Naturalmente, o uso do tato mais difundido em termos de locomoção é o uso de uma bengala, onde ela faz as vezes de uma longa extensão do braço e é como se o cego tateasse o seu caminho. Mais tarde estudaremos o seu uso.

Ao contrário do que se imagina, quanto mais levemente tatearmos um objeto, melhor será o resultado da observação. Isso decorre do fato de que o emprego de força pode deformar o objeto se ele for flexível, ou mesmo ultrapassar o gradiente de sensibilidade do terminal nervoso, prejudicando seu funcionamento. Aqui incluo dois casos em que essa questão foi mal interpretada. Ambos ocorreram nos Estados Unidos, o que ajuda a mostrar a universalidade do comportamento coletivo perante os cegos.

O primeiro ocorreu em Savanah (GA), numa visita que fizemos a um museu colonial. Tratava-se de uma casa, onde o que se mostrava eram peças de época como vestuário e mobília. Minha esposa mostrou-me os entalhes da carcaça de um cravo. Quando eu estava observando, ouvi: "Por favor, não toque!". Expliquei à guia que eu era cego e que tinha pago para "ver o que todos viam. Não fui atendido, o que provocou indignação no grupo de estudantes a que pertencia. O segundo ocorreu no museu de arte medieval "the Cloisters" em New York. Para evitar confusão, dirigi-me à administração para pedir permissão para tatear os objetos. Concederam, porém, com a condição de que eu me limitasse aos de pedra. O primeiro que fui observar era um misto de quadro com escultura, onde o relevo de alabastro era mais fino que uma casca de ovo. Era tão delicado que eu mesmo optei por não tocar. Por outro lado havia trabalhos de algumas centenas de quilos em que não podia pôr a mão por serem de madeira.

Outra curiosidade é que o melhor órgão do ser humano para observações táteis é a língua. Os cegos tendem a colocar sobre ela os objetos pequenos ou de difícil análise, pois isso os faz parecer muito maiores e detalahados. O leitor poderá fazer a experiência tateando seus próprios dentes e notará que à lingua, eles parecem muito maiores do que na realidade são.

Um fenômeno que precisa ser entendido com precisão é o que se chama de visão de sombra. Os morcegos, como todos devem saber, têm os olhos atrofiados. Orientam-se assobiando e analisando auditivamente os reflexos das ondas que eles emitem. Foi daí que os cientistas desenvolveram os radares. Aproximadamente vinte porcento dos cegos possuem essa capacidade. Obviamente, eles não assobiam o tempo todo para se orientar mas usam os ruídos do meio para analisar os reflexos. Assim, podem detectar objetos volumosos que sejam de altura maior ou igual à sua. Eles, portanto, são privilegiados em termos de locomoção porque não esbarram em portas fechadas, postes, placas etc. Na verdade, eles podem tocar tais objetos, porém, sem grandes danos porque sabem que algo está lá. Isso, no entanto, não é infalível porque qualquer queda da capacidade auditiva (resfriados, mudanças bruscas de altitude e outras causas) torna-os totalmente incapazes de tal persepção. O problema piora quando a queda de eficiência ocorre em um só ouvido, pois o cego passa a se comportar como se houvesse uma parede daquele lado e tende a se desviar para o lado oposto, prejudicando sua locomoção. É, também, por isso que, quando a idade avança, os deficientes visuais precisam usar um aparelho auditivo de cada lado e não um só como fazem os videntes. Isso nem sempre é compreendido pelos médicos, principalmente os especialistas.

Em 1983, a empresa em que eu estava trabalhando adquiriu um equipamento extremamente barulhento para imprimir as faturas e notas-fiscais. Ocorre que aquele arremedo de computador foi instalado na mesma sala em que eu e minha equipe ficávamos. Três meses depois comecei a sentir os efeitos da exposição contínua a tamanho ruído. Deixei de escutar os freios a disco dos automóveis e outros sons de extrema utilidade para mim. Procurei o especialista indicado pelo convênio médico a que a empresa estava filiada. Ele me pediu uma audiometria que revelou o que se chama de uma gota de audição em 6000Hz. Isso significa que, para se proteger, meus ouvidos anulavam aquela freqüência porque deveria ser a de maior emissão pela maldita máquina. Era mais acentuada do lado esquerdo porque era naquela direção que ela estava instalada. Questionei: "Não é o caso de se transferir o equipamento para outro local?" Não sei se para evitar confrontos, talvez por não compreender a importância da audição para um cego, ele respondeu: "Nós interpretamos como deficiência a falta de audiçao nas frequências usadas para conversação, o que não é o seu caso." Minha sorte foi que meu chefe entendia de acústica e, ao ver os resultados dos exames, transferiu imediatamente a máquina.

Assim, podemos ficar certos de que a falta de visão é apenas mais uma deficiência a que estamos expostos e que, ao contrário do que se pensa, não podemos contar com ajuda dos outros sentidos. Pelo contrário, com a idade, eles só contribuem para agravar o quadro.


Mobilidade x Locomoção.

Existe em New York uma instituição mundialmente conhecida entre os cegos, denominada "Light House". Lá, tive a oportunidade de fazer um treinamento para me adaptar ao uso da bengala longa naquela cidade.

Ao voltar, conversando com a Sra. Dorina de Gouvea Nowill, Presidente da Fundação Dorina Nowill para Cegos, contei-lhe sobre os resultados do meu novo treinamento de locomoção. Ela discordou da terminologia, afirmando que a palavra correta seria "mobilidade". Respondi, então: "Todas as manhãs, ao acordar, faço cerca de mil e duzentos exercícios físicos diferentes, pratiquei volteio e sou adepto do hipismo rural, o que prova que tenho uma boa mobilidade. O meu problema está relacionado com a dificuldade que tenho de ir de um lugar para outro, o que implica que a minha capacidade de locomoção está comprometida pela minha deficiência visual." Isso posto, fica estabelecido que usaremos o termo”mobilidade” para definir a capacidade que cada um tem em se mexer, e “locomoção” ao que se referir a ir de um lugar para outro.

É fato que a cegueira traz inúmeros problemas ao indivíduo; porém, o pior deles é, sem dúvida, a dificuldade de locomoção. Aqui vai uma outra premissa. Muitos deficientes dos mais diversos tipos reclamam do fato de as cidades e mesmo as construções residenciais não serem projetadas para seu uso. Pessoalmente, sou totalmente contrário a essa assertiva porque eles têm esse título por serem incapazes de fazer coisas que os seres humanos ditos “normais” fazem. Tentemos, então, entender o que é um ser humano normal. Se o definirmos como aquele que não possui deficiências físicas ou mentais, estaremos excluindo dessa relação aproximadamente 99,99% da população mundial. Por outro lado, se os seres normais forem os portadores de deficiências suplantáveis, estaremos chegando muito mais perto de incluir nessa categoria 80% da mesma população. Tomemos, pois, como válida essa segunda definição. Uma terceira premissa precisará ser entendida: ninguém é totalmente deficiente, porque é capaz de suplantar seus próprios problemas em maior ou menor proporção. Em outras palavras, quando conseguimos "nos ver", estamos deixando de ser deficientes. As reclamações deles a cerca das dificuldades que enfrentam para conviver em uma cidade projetada para atletas é infundada, posto que seria impossível criarem-se meios para suprir todas as dificuldades. Cito um exemplo: muitas ruas contam com calçadas rebaixadas, para que as cadeiras de rodas possam subir e descer com facilidade. Isso, para os cegos, representa um perigo porque, usando bengalas, eles não percebem que o quarteirão acabou e podem ser atropelados por esse motivo . Resumindo, os deficientes desse ou daquele tipo são sempre minoria, visto que são deficientes e precisam viver em um mundo projetado para suprir as necessidades da maioria. Não se podem exigir rampas em todos os prédios, porque isso geraria um enorme custo social. Da mesma forma, não se pode querer que todas as residências tenham elevadores para uso dos cardíacos, pelo simples fato de que há problemas muito mais urgentes para serem resolvidos pela sociedade, como a miséria, que causa grande parte das deficiências físicas e mentais.

Isso não quer dizer que as normas e as leis não considerem medidas viáveis para facilitar a vida de quem se locomove com dificuldade, como portas de elevadores largas o suficiente para que cadeiras de rodas passem, autorização permanente para o ingresso de cães guias em quaisquer ambientes, e outras. O que digo não ser possível é resolver os problemas de todos os tipos para todos os tipos de deficiência que possam acometer o ser humano. Recentemente fui convidado a falar sobre bolsas e bolsistas no Rotary Club S. Paulo Mooca. Coincidentemente, havia uma menina cega recém-chegada de um programa de intercâmbio de curta duração na Noruega. O presidente do clube deu-lhe a palavra antes de que eu fizesse minha palestra. Ela citou o respeito com que os noruegueses tratam os problemas físicos e sensoriais. Contou que, na cidade onde ficou hospedada, por causa de um só cego, todos os jardins eram cercados para evitar acidente. A platéia entrou em êxtase. Fiquei com uma tremenda vontade de alterar o meu tema e, ao contrário do que costumo fazer, falaria sobre questões ligadas aos deficientes. Não o fiz, por disciplina. Ocorre que a Noruega possui somente cinco milhões de habitantes e sua maior cidade, apenas quinhentos mil, o que torna viáveis medidas paternalistas como essa.

Por tudo o que discutimos, cabe aos cegos aprender a caminhar pelas cidades e, daí, adquirir sua independência. A locomoção é, portanto, crucial para o desenvolvimento dos deficientes visuais como seres humanos.

Devido à dificuldade de locomoção, muitos cegos acabam por possuir problemas — até mesmo sérios — de mobilidade. Isso decorre do fato de que eles caminham pouco e, quando o fazem, é sempre lentamente. O resultado é que existe uma tremenda baixa no nível de condicionamento físico desses indivíduos, chegando a provocar-lhes atrofia muscular, problemas cardiovasculares, osteoporose, etc. Isso se transforma em uma limitação a mais para sua locomoção. Assim, todos os deficientes físicos devem ser incentivados à prática de um esporte.

Por tudo o que descrevemos nos capítulos anteriores, pode-se concluir que a capacidade de locomoção de um cego precisa ser avaliada antes de qualquer treinamento que se venha a fazer. Para que se tenha uma breve idéia da extensão da variação, descreverei como funciona o uso de uma bengala.

O primeiro passo é o de definir o seu comprimento. Teoricamente, o ideal é que o instrumento seja da altura do início do esterno do usuário. Isso é teórico, porque depende do comprimento do braço, do tamanho do passo médio e do condicionamento físico do indivíduo. É, no entanto, o tamanho de bengala padrão que é utilizado durante o treinamento, para que os demais fatores possam ser avaliados e encontrada a bengala definitiva.

Muitos videntes pensam que a bengala precisa acompanhar os pés do usuário. É justamente o oposto. Se a bengala acompanhasse os passos, ela transmitiria informações caducas ao usuário porque ele já teria posto o pé no lugar onde a bengala está. Assim, se o usuário der um passo com o pé direito, a bengala deverá tocar o lado esquerdo, formando um triângulo isósceles com os pés. Isso informará ao cego se ele pode ou não dar o próximo passo. Ela será capaz de informar a altura de degraus ou de quaisquer outras irregularidades do solo. Pelo escorregamento, pode-se notar a presença de óleo, gelo, terra etc. Uma curiosidade é que, durante o inverno em países frios, os cegos levam vantagem porque sabem, pelo toque da bengala, se a calçada está ou não coberta de gelo, evitando tombos. Nesses casos, os videntes não percebem a presença do gelo, porque ele não brilha se a temperatura estiver abaixo do ponto de congelamento.

Assim, podemos concluir que, se o cego prefere andar mais rápido com passos longos, precisará de uma bengala mais longa. Por outro lado, se o condicionamento físico for ruim, ele precisará de uma bengala ainda mais longa, para lhe dar mais tempo de reação. Já no caso de a musculatura do braço ser demasiadamente fraca, a bengala precisará ser mais curta, para evitar que seu peso transtorne a caminhada. Resumindo, cada caso deve ser encarado de uma maneira diferente, e o cego acaba escolhendo sua bengala após um certo tempo de condicionamento.

Pessoas que não possuem "visão de sombra", quando entram em lojas ou ambientes baixos, precisam colocar a mão à frente do rosto para evitar acidentes. Pessoas que possuem deficiência auditiva, como ocorre com os que perdem a visão por diabete, precisam de bengalas mais curtas. Aquelas cuja audição é melhor em um ouvido que em outro, tendem a desviar para o lado oposto. É justamente por isso que, antes de se começar um treinamento, as instituições pedem minuciosos exames médicos aos futuros alunos.

Conheci um rapaz que, além de possuir visão tubular (total ausência de visão periférica), era cego do outro olho e tinha somente cinco por cento de audição, o que prejudicava enormemente sua fala. O leitor pode imaginar o quão especial tinha que ser seu treinamento, posto que todo seu processo cognitivo ficava prejudicado, afetando gravemente sua personalidade.


Convivendo com Cegos

Há uns quinze anos, minha esposa decidiu-se por tomar aulas de leitura dinâmica. Como se sabe, esses cursos tentam aliar uma leitura rapidíssima a um elevado nível de compreensão do texto e a um alto grau de retenção de informações. Um dos exercícios de técnicas de memorização a que os alunos se submeteram consistia em desempenhar atividades das mais triviais, porém simulando uma deficiência física qualquer. Minha esposa participou do jogo por uma hora, até que ela se lembrou de que eu não enxergava. Veio, portanto, a compreensão clara de que um deficiente só se enquadra nessa condição quando não pode fazer algo; caso contrário, estará apenas aplicando métodos pouco usuais.

Em outras palavras, se eu resolver me candidatar a um cargo de controlador de tráfego aéreo, serei reprovado por causa de minha deficiência e não reclamarei de preconceito. Na frente de um computador ou diante dos mais complexos cálculos matemáticos, não possuo deficiência alguma.

Conviver com cegos é, portanto, normal, desde que nos habituemos com o jeito com que eles resolvem seus problemas. Um exemplo disso é que, para quem não enxerga, não existe o menor sentido em se segurarem as cartas em um jogo, em forma de leque. O método usual prevê o fato de que o vidente queira ter uma visão do conjunto das cartas que possui, o que é impossível a um cego. Assim, ele tenderá a colocar um naipe entre cada um dos quatro vãos de sua mão esquerda, se for destro, ou de sua mão direita, se for canhoto. Outra coisa que os videntes estranham muito é o fato de que os cegos muitas vezes põem a pasta de dentes diretamente sobre a língua, ao invés de a colocarem na escova. Uma vez, ouvi de um empregado meu: "Por que você está soprando o tubo de pasta?". Ao que respondi: "Você já tentou por a pasta na escova sem olhar?". É por isso que carrego sempre um tubo de pasta comigo. Tantos são os exemplos nesse sentido que o assunto em si já seria tema para um livro. Por enquanto, cabe descrever os pontos em que os cegos são de fato deficientes.

Geralmente, quando não se está acostumado com cegos, os videntes tentam segurar-lhes o braço para indicar-lhes a direção a seguir. Isso é totalmente errado. É infinitamente mais fácil oferecer-lhes o braço ou o ombro para que eles os sigam. Em outras palavras, se o vidente segurar o braço do cego, este ficará à sua frente, o que obrigará o condutor a descrever todos os obstáculos. Caso o cego o estiver seguindo, isso não será necessário porque, se o condutor subir, ele sentirá e o acompanhará, assim como a qualquer movimento que o outro fizer. O mesmo se aplica aos cães-guia. Seus arreios colocam o deficiente na altura de suas patas traseiras, de sorte que ele possa perceber o movimento do cão a partir de suas patas dianteiras, dando-lhe tempo de reação.

Palavras como: “cuidado” “cá”, “lá” e outras são totalmente inócuas. Suponhamos que um cego esteja caminhando por uma rua e haja um obstáculo à frente que ele não possa perceber com sua bengala. Um transeunte bem intencionado pode gritar: "Cuidado!!!" e isso não servirá de nada ao outro, porque não ficou sabendo de que perigo se tratava. Assim, como já disse no capítulo II, tudo pode ser explicado a um cego, desde que se tenha habilidade com as palavras. Na verdade, é melhor que o transeunte grite: "Poste!!!" ou "Degrau para baixo!!!" e assim por diante. Da mesma forma, de nada adianta dizer a um cego: "Vá mais para lá!!!" É preferível que se diga: "Dois passos para a direita." Resumindo, ao contrário do que se pode imaginar, cegos abstraem o tempo todo. Daí as palavras corretas serem tão importantes. Essa constante abstração advém do fato de que os não videntes usam a memória o tempo todo. Eles não vêem que as coisas estão lá, apenas se lembram disso. Após conviver um pouco com cegos, percebe-se que eles não gostam de separar-se de seus objetos pessoais, para não terem que se lembrar de onde os deixaram. Procurar, aliás, é um trabalho muito árduo para um cego. Dessa forma, é desejável que nada seja mudado de lugar. Não há nada mais cansativo para um cego do que um dia de faxina. Isso se deve ao fato de que, nesses dias, tudo é removido de seus lugares normais, impedindo uma caminhada segura, mesmo que o ambiente seja o mais conhecido possível.

Oitenta por cento dos acidentes ocorrem em ambiente doméstico, e os cegos não são exceção. A visão de sombra é um exemplo disso. Como já vimos, vinte por cento dos cegos contam com isso super desenvolvido, mas todos os que têm audição normal o possuem, quando dentro de casa ou outros ambientes, cuja acústica lhes seja familiar. É exatamente aí que os descuidos são cometidos e os acidentes mais graves acontecem. Na rua, por exemplo, o deficiente usa sua bengala, pede auxílio às pessoas e mesmo conta com seu cão-guia. Em casa, isso já não acontece. Anda-se com rapidez e de uma forma totalmente baseada na memória e na acústica do ambiente. Assim, é preciso que não se deixem portas, armários e outros móveis meio abertos. Nessa posição, os objetos não contam com área suficiente para que o cego detecte sua presença e fatalmente irá abalroá-los, podendo machucar-se. Assim, sempre que precisar, procure abrir ou fechar totalmente portas ou quaisquer outros utensílios basculantes.

Antes de tirar uma conclusão a respeito da atitude de um cego, bem como sobre seu nível de entendimento acerca do que se passa a seu redor, pergunte-lhe se precisa ou não de ajuda. Não deduza, porque isso pode ser fatal. Aqui vai um caso recente que ilustra o problema. Estando hospedado em casa de amigos, resolvi dar um mergulho na piscina. Dirigi-me, então, ao lugar de onde sempre pulava de cabeça, quando um outro hóspede me advertiu: "É melhor você pular daqui." Por uma questão de insegurança, resolvi aceitar o conselho e pulei do ponto que ele me indicou. Ocorre que se tratava da menor dimensão da piscina, o que me fez bater a cabeça na parede oposta. Por muito pouco não morri nem fiquei tetraplégico. O desastre ocorreu porque ele não pensou que eu fosse mergulhar de cabeça e porque ele deduzira que, pelo fato de eu ser deficiente visual, não saberia nadar bem. É justamente por isso que repito: não deduza; pergunte, porque é mais seguro.

Muitas vezes, um cego pode não responder a um interlocutor pelo simples motivo de que não sabe com quem o outro está falando. Assim, sempre que precisar dirigir-se a um deficiente visual, chame-o pelo nome e, se não o souber, toque levemente o seu braço. Algo similar pode acontecer em ambientes muito ruidosos. Nesses casos, os videntes, sem o notar, passam a comunicar-se por leitura labial, o que é impossível a um cego. Em locais como boates, discotecas, danceterias, estações de metrô e outros, procure tocar o braço do não vidente e falar-lhe em voz alta ou próximo de seu ouvido. Caso contrário, ele poderá não lhe responder, por não ser capaz de ler os seus lábios.

É preciso que se entenda que qualquer deficiente encontra na sua deficiência um ponto de sensibilidade. O grau varia com o nível de adaptação que o indivíduo tiver alcançado. Há alguns deficientes visuais que não se sentem bem ao ouvir termos como "cego", "cegueira", "ceguinho" ... assim como os que têm dificuldade para caminhar são sensíveis a termos como "manco", "coxo" etc. Isso advém do fato de que tais palavras passaram a possuir conotações pejorativas, o que deprime o portador de qualquer uma das deficiências possíveis. Em alguns casos, isso vem a ser ainda mais sutil, como ocorre com aqueles cuja inteligência se situa abaixo do normal. Explico melhor: aqueles que têm dificuldade em aprender sentem-se muito mais ofendidos quando são chamados de "burros" do que os demais, visto que são conscientes de suas dificuldades. Assim, sempre que precisar saber algo acerca da deficiência de um não vidente, não use de rodeios. Pergunte-lhe as coisas diretamente, porém evitando uma terminologia que possa parecer pejorativa. Repito que isso atinge os indivíduos de uma forma extremamente particular e, à medida que nos conhecemos mutuamente, passamos a compreender o que pode ou não ser ofensivo ou mesmo deprimente.

Muitas pessoas pensam que os incapazes de ver não se interessam por diversões como televisão, cinema ou mesmo teatro. Outros videntes deduzem que o cego não seria capaz de entender por si próprio o que se passa em um filme ou em uma peça. Trata-se de um terrível engano porque tais coisas são muito próximas da realidade e o deficiente já está habituado a deduzir o que se passa, através dos sons. Quando a compreensão se lhe torna difícil, ele mesmo se encarrega de perguntar.

Finalmente, é preciso que se compreenda que um cego é um ser humano como outro qualquer e está sujeito a mudanças de estado de espírito, como os demais. Uma vez estive viajando com um dos diretores da Associação dos Profissionais de Recursos Humanos de Sto. Amaro, que também era gerente desse setor em uma grande indústria. Durante o percurso, deu-se o seguinte diálogo:

— Os cegos são muito malandros — disse ele.

Por quê?

— Porque muitos dos que trabalham na minha firma dão esbarrões nas mulheres e desviam dos homens.

Expliquei-lhe, então, que os cegos não são ou deixam de ser coisa alguma. Há cegos malandros e outros que são sérios, há os que gostam de trabalhar, enquanto outros, como muitos videntes, procuram motivos para tirar seu sustento sem esforço. Assim, podemo-nos referir à maior parte dos defeitos e das qualidades que acometem todos os seres humanos. O que pode diferir é o fato de que a deficiência põe o indivíduo em estado de tensão constante, que pode exacerbar seus caracteres positivos ou negativos. É, portanto, um equilíbrio mais frágil do que o de uma pessoa normal, mas que se torna mais estável na medida em que o deficiente se torne mais apto a resolver por si mesmo a maior parte de seus problemas. Quanto ao diálogo em si, muito embora pessoalmente reprove esse tipo de atitude, é preciso considerar-se que os homens normais saciam sua curiosidade com os olhos e os cegos também têm necessidade desse tipo de satisfação. Se os formos reprovar, devemos fazê-lo na exata medida em que se reprovam os videntes que quase engolem as moças passantes com os olhos, já que a falta cometida é a mesma. Mais tarde, ele me telefonou para dizer que tinha entendido o problema e que passara a ver o deficiente como um ser humano normal, em termos de necessidades.


excerto:
caps. 1 a 5 da obra
Meus olhos têm quatro patas
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
1993
 

Fonte: http://www.redespecialweb.org/ponencias2/carvalho.txt


Publicado por MJA
[Mai.2007/Set.2011]