Sobre a Deficiência Visual

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Entendendo a baixa visão

− orientação aos professores −
 

Regina Oliveira,
Newton Kara-José
e Marcos Wilson
 


1.ª parte:
Anatomia do Olho e Fisiologia da Visão

 

Quais são as partes do globo ocular?

O globo ocular está situado dentro de uma cavidade óssea e possui aproximadamente 24 mm de diâmetro anteroposterior e 12 mm de largura.


ANEXOS OCULARES: As sobrancelhas, os cílios e as pálpebras são protectoras do globo ocular. Impedem que partículas, como poeira, caiam dentro do olho. As pálpebras também têm como função a distribuição da lágrima, ocorrida durante o piscar.

 

Anexos do globo ocular


A conjuntiva é uma película vascular que recobre a esclera na porção visível, até à córnea. Também recobre a parte interna das pálpebras inferiores e superiores.

Os músculos - cada olho possui seis músculos que possibilitam sua movimentação para os lados. Quando os músculos funcionam, normalmente os dois olhos estão sempre mirando na mesma direcção. Mas se algum músculo não funciona bem, ocorre o estrabismo ou vesguice.

APARELHO LACRIMAL: a glândula lacrimal fabrica a maior parte da lágrima que banha o olho. No canto interno da pálpebra (próximo ao nariz) existem um orifício e um canal que levam a lágrima já usada para o nariz. A lágrima serve para limpar, facilitar o acto de piscar e nutrir o olho.

 

Globo ocular


CÓRNEA: é uma membrana transparente, localizada na frente da íris. tem como funções permitir a entrada de raios de luz no olho e a formação de uma imagem nítida na retina. Seria como a lente da máquina fotográfica.

ÍRIS: disco colorido com um orifício central (chamado PUPILA - menina dos olhos). Sua função é controlar a quantidade de luz que entra no olho: ambiente com muita luz faz fechar a pupila; ambiente com pouca luz faz dilatar a pupila. Exerce a função idêntica ao diafragma de uma máquina fotográfica. [...]

CRISTALINO: lente biconvexa, transparente, flexível (capaz de modificar a sua forma), localizada atrás da íris. Sua função é focar os raios de luz para um ponto certo na retina.

RETINA: camada nervosa, localizada na porção interna do olho, onde se encontram células fotoreceptoras (CONES, responsáveis pela visão central e pelas cores, e BASTONETES, responsáveis pela visão periférica e nocturna). Sua função é transformar os estímulos luminosos em estímulos nervosos que são enviados para o cérebro pelo nervo óptico. No cérebro essa mensagem é traduzida em visão.

CORÓIDE: é uma camada intermediária, rica em vasos que servem para a nutrição da retina. A região da retina, responsável pela visão central, chama-se MÁCULA, na qual se localizam os cones.

HUMOR VÍTREO: é uma substancia viscosa e transparente, semelhante a uma gelatina, que preenche a porção entre o cristalino e a retina.

HUMOR AQUOSO: é um líquido transparente, que preenche o espaço entre a córnea e a íris. Sua principal função é a nutrição da córnea e do cristalino, além de regular a pressão interna do olho.

ESCLERA: é a parte branca do olho. Sua função é a protecção ocular.

 

Como enxergamos?

O estimulo visual do olho até ao cérebro: As imagens e os raios de luz atravessam a córnea, o humor aquoso, a pupila, o cristalino e o humor vítreo. Todos esses meios devem estar transparentes para que a luz possa passar por eles e chegar à retina. Da retina, são encaminhados para o cérebro através do nervo óptico.

Nos primeiros anos de vida, qualquer diminuição da transparência das estruturas a serem atravessadas pela luz ou formações de imagens fora da retina pode ocasionar deficiência visual irreversível. Por isso a necessidade da retina e do cérebro receberem estímulos visuais nítidos desde o nascimento.


 

2.ª parte:
Doenças oculares que acarretam baixa visão na criança

 

Quais as doenças que mais afectam a visão da criança e como a afectam?

1) Catarata congénita: é a opacificação do cristalino - presente ou desenvolvida logo após o nascimento. A catarata impede a passagem da luz para a retina, provocando baixa visão. Pode ser ocasionada:

- por uma infecção durante a gestação, como por exemplo, o vírus da rubéola;
- ser hereditária ou
- por trauma durante o parto.

A catarata tem diferentes intensidades e a cirurgia deve ser indicada quando a visão for prejudicada. As cataratas congénitas de grau avançado devem ser operadas nas primeiras semanas de vida. A não ser que ocorram outras complicações, a acuidade visual vai se manter ou até mesmo melhorar com o tempo.

2) Glaucoma congénito: aumento da pressão interna do olho causado por uma anomalia na eliminação do humor aquoso. A criança apresenta aumento do globo ocular, muita sensibilidade à luz, lacrimejamento e coceira. A cirurgia deve ser decidida o mais depressa possível, pois a perda visual pela hipertensão é rápida na criança. A manutenção da visão residual dependerá do completo controle da pressão intra-ocular. Nos casos mais avançados (quando o olho fica muito grande), existe o perigo de perfuração, se houver traumatismos. Para a criança executar trabalhos de perto, será necessária muita iluminação com pouco reflexo.

3) Doenças hereditárias: albinismo, anomalias na retina, córnea, íris, mácula,  nervo óptico e altas miopias.

4) Conjuntivite gonacócica: ocorre quando a mãe apresenta uma doença venérea (a gonorreia) e a transmite ao filho durante o parto normal. Se o recém-nascido não for devidamente tratado logo ao nascer, o microorganismo pode levar a uma úlcera de córnea ou mesmo à perfuração ocular, resultando em baixa da visão ou cegueira.

5) Toxoplasmose: quando a mãe se infectar durante a gravidez, essa infecção pode passar para o feto. Os agentes transmissores estão nas fezes do cachorro, gato, aves e na carne de porco. A acuidade visual estará muito comprometida quando a lesão for na mácula.

6) Neurite óptica: inflamação do nervo óptico do recém-nascido, associada geralmente à presença na mãe de anemia, subnutrição, diabetes ou uso de drogas. Pode levar à cegueira ou à visão deficiente.

7) Retinopatia do recém-nascido (Fibroplasia Retrolental): ocorre nos bebés prematuros expostos à aplicação de oxigénio. Provoca o aparecimento de uma massa fibrosa na região da retina que pode levar ao seu deslocamento. Geralmente acarreta visão muito baixa.

Para aqueles que têm uma visão útil, lentes de aumento e telescópicas ajudarão a eficiência visual para perto e para longe, com auxílio de foco de luz forte nas tarefas para perto.

8) Retinose pigmentar: doença hereditária cujos sintomas em geral se manifestam no jovem. Trata-se de uma degeneração da retina que começa na periferia e lentamente compromete também a visão central. Até ao momento não há cura e tende a levar à cegueira na quinta ou sexta década de vida.

Observação: Os olhos de algumas crianças portadoras de baixa visão podem ter movimentos rápidos de um lado para o outro. Esses movimentos são chamados de "nistagmo" ou "nistagmus". O nistagmo quase sempre é um sintoma de desordem neurológica e indica que seu portador deve ter também desordens no sistema visual.

Qualquer doença ocular que cause baixa visão é contagiosa?
A não ser as conjuntivites bacteriana e viral, as demais doenças não podem ser transmitidas por contacto directo.


 

3.ª parte:
Acuidade visual

 

O que são a visão central e visão periférica? E acuidade visual? E campo visual?

 

Visão central é aquela na qual a imagem cai no centro da retina, em uma área chamada mácula, e essa visão é cheia de detalhes. É importante na leitura para perto, para longe e nas actividades que exigem percepção de detalhes.

Visão periférica é aquela que se forma fora da mácula, na periferia da retina. Essa visão é pouco rica em detalhes; percebe-se a presença dos objectos e movimentos, mas nada nítido. É importante para se locomover, principalmente à noite (com pouca iluminação).

Acuidade visual é a capacidade visual de cada olho (monocular) ou dos dois olhos em conjunto (binocular).

Campo visual é toda a área que abrange sua visão, sem movimentar os olhos.

 

Qual é o desenvolvimento normal da visão e o que pode prejudicá-lo?

Para haver desenvolvimento normal da visão, é importante:

1) Que a imagem do objecto focado chegue nítida à retina. Para isso não pode haver lesão ou alteração de transparência da córnea, pupila, íris, vítreo ou retina, o que alteraria ou bloquearia a imagem. Que o olho seja de tamanho normal (imagens focando na retina).

2) O nervo óptico não pode estar atrofiado e não deverá haver lesões na via óptica que leva a imagem até o cérebro.

3) O cérebro deve ser capaz de interpretar a imagem recebida. Para isso, não poderão ocorrer alterações cerebrais de ordem anatómica ou mesmo mentais.

 

O recém-nascido enxerga tanto quanto fala ou anda. Se todas as partes do olho estiverem em perfeita ordem e o cérebro for estimulado com imagens nítidas, desenvolverá a visão normalmente, chegando ao seu pleno desenvolvimento entre os 5 e 7 anos de idade. Assim, o adulto que enxerga pouco desde o nascimento continuará enxergando mal sempre, não havendo nenhuma cirurgia ou tratamento que solucione o problema.

O que continua a melhorar é a capacidade de interpretar o que o cérebro "vê". Assim como um radiologista é treinado para entender imagens escuras de uma radiografia (ele vê uma radiografia igual a todas as pessoas, porém interpreta muito mais coisas graças ao seu treino e experiência), quem tem baixa visão deve ser estimulado a treinar sua capacidade de "entender" o que vê.

 

Desenvolvimento da visão

Nascimento: o recém-nascido só percebe luz, pois a mácula ainda não está totalmente desenvolvida e o cérebro ainda não sabe interpretar os estímulos visuais que recebe.

Aos três meses: Já consegue fixar, pois a área macular está estruturada. Consegue seguir um objecto com o olhar.

Aos nove meses: inicia-se a visão de relevo; já consegue ter noção de distância e de formas.

Com um ano: as crianças já reconhecem objectos e parentes próximos a ela.

Aos quatro anos: visão quase completa.

Aos cinco anos: visão igual a do adulto, podendo melhorar até os 7 anos de idade.

 

Como enxerga a criança com baixa visão?

A criança com baixa visão enxerga pouco, mesmo com o uso de óculos. A criança que tem baixa visão deve ser estimulada a usar a visão residual (que resta) ao máximo. Ela não é cega e não deve ser tratada como tal.

 

          Visão normal      Catarata

      Lesão na visão central      Glaucoma

 

O que são: hipermetropia, miopia e astigmatismo?

1) Hipermetropia: o olho é menor do que o normal e a imagem forma-se atrás da retina. Os hipermétropes têm dificuldade em enxergar de perto, e necessitam de um esforço maior para acomodar a imagem na retina.


Características dos hipermétropes: é comum aos portadores de hipermetropia que não usam óculos terem dores de cabeça, tonturas e cansaço visual, principalmente se estiverem lendo, escrevendo, pintando ou brincando com objectos próximos dos olhos. Geralmente são crianças mais dispersivas, que dão preferência a brincadeiras ao ar livre.

2) Miopia: quando o olho é maior do que o normal e a imagem se forma num ponto anterior à retina. A dificuldade é ver nitidamente à distância.


Características dos míopes: geralmente, os míopes apertam os olhos para ver melhor, e costumam aproximar os objectos para bem perto dos olhos. As crianças portadoras de miopia, que não usam óculos, normalmente são mais tímidas, preferindo actividades como leitura, pintura ou brincadeiras próximas das mãos, do que ao ar livre e à distância.

3) Astigmatismo: quando a córnea não é esférica, isto é, sua curvatura difere de um ponto para o outro, a imagem formada na retina será distorcida. Exemplo: a córnea sem astigmatismo é semelhante a uma bola de futebol cortada ao meio; já uma córnea com astigmatismo é semelhante a uma bola de futebol americano, que é oval. O astigmatismo pode estar associado à miopia ou à hipermetropia.


Características dos astigmatas: os portadores de astigmatismo, quando não usam óculos, podem apresentar dores de cabeça, ardor ocular e olhos vermelhos aos esforços visuais para perto e longe.

Observação: Chama-se ambliopia ou "olho preguiçoso à baixa visual em um ou nos dois olhos, apesar do fundo do olho ser normal. Quase sempre pode ser prevenida e tratada. Suas causas mais comuns são o estrabismo (olho vesgo, torto), grande diferença entre o grau de um olho e outro, e alta miopia, hipermetropia ou astigmatismo.


 

4.ª Parte:
Educação da criança com baixa visão

 

Como os professores podem ajudar as crianças com baixa visão na sala de aula?

Os professores desempenham um importante papel no processo de integração da criança com baixa visão, inicialmente preparando a classe para recebê-la e, posteriormente, ajudando-a a se familiarizar com o meio físico e com os colegas.

Outra acção importante do professor é propiciar meios para a utilização da visão residual da criança.

Como melhorar a eficiência visual da criança com baixa visão?

Isso pode ser realizado com o auxílio de meios ópticos e não ópticos. Os auxílios ópticos são específicos para as necessidades visuais de cada criança e dividem-se fundamentalmente em duas categorias: os que ampliam a imagem para perto, permitindo a leitura de material impresso, e os que ampliam as imagens para longe, possibilitando, por exemplo, acompanhar o que está sendo exposto no quadro.

Em princípio, as crianças com baixa visão devem ser colocadas nas cadeiras da frente na sala de aula e em posição que evite muita reflexão de luz sobre a lousa.

A) Recursos ópticos - São lentes que possibilitam o aumento das imagens.

Para perto:
Para perto utilizamos lentes positivas de grau geralmente elevado. Muitas vezes optamos apenas pela correcção do melhor olho, pela dificuldade de se obter visão simultânea em ambos os olhos com auxílios ópticos. Ressalta-se que quando utilizamos um sistema óptico que aumente o tamanho da imagem, diminuímos o campo de visão, ou seja, a área focada é menor do que o normal. Pode-se também fazer uso de lupas manuais ou de apoio, com aumentos variáveis que propiciem maior conforto e eficiência na leitura.


As lupas manuais são bastante práticas, pois podem ser levadas em bolsos, mas podem representar um problema para a leitura mais prolongada ou quando temos alguma dificuldade em segurá-las firmemente. Devem ser mantidas próximas ao material de leitura.

Nos casos de leitura prolongada, as lupas de apoio são de grande valia. Elas apresentam a vantagem de sua base já as colocarem na distância correcta de utilização em relação ao material de leitura ou estudo, variando, assim, apenas a posição do olho do observador.

Para longe:
Para melhorar a visão de longe, utilizam-se sistemas telescópicos (telelupas)que podem ser monoculares (em um olho) ou binoculares (nos dois olhos).

Tais auxílios são, em geral, usados estaticamente, isto é, quando o indivíduo está parado, pois o campo visual fica reduzido e a percepção de distância alterada. Habitualmente são monoculares e presos ao pescoço por uma alça. São os únicos auxílios ópticos empregados para longe e utilizados pelas crianças para observar o quadro negro, assistir à TV, reconhecer o autocarro ou pessoas. Também como regra, quanto mais poderosa, menor é o campo de visão (área de visão) e exigem alguma destreza manual e treinamento para a sua utilização.

Lentes filtrantes que diminuem os reflexos de luz e possibilitam maior contraste podem ser adicionadas à correcção óptica, levando a um maior conforto e eficiência.

 

B) Recursos não ópticos

São recursos que não utilizam lentes para melhorar o desempenho visual. Na sala de aula, devem ser disponibilizados na medida do possível:

- iluminação adequada;
- apoio adequado para leitura e escrita;
- cadernos com pautas ampliadas;
- lápis 6B ou 3B;
- canetas hidrográficas que permitem maior contraste;
- livros didácticos com tipos ampliados;
- chapéus e bonés podem ajudar a diminuir a reflexão excessiva da luz em ambiente externo;
- guia de leitura - a leitura pode ser facilitada com o uso de uma régua para marcar a linha ou uma cartolina preta com uma abertura no centro, que serve para destacar uma ou mais linhas;


Uma cartolina preta com abertura ao centro

 

 

Importância da iluminação

Uma iluminação adequada é fundamental para qualquer pessoa durante a leitura e extremamente importante para o bom desempenho do portador de baixa visão, que geralmente necessita de maior iluminação.

A fonte de luz deve ser posicionada próxima ao material de leitura; candeeiros com braços ajustáveis são muito úteis para esta finalidade.

Nem todos os pacientes beneficiam com a incidência directa de luz, sendo importante experimentar diversas posições e estilos para encontrar a que mais se adapta às condições individuais. Algumas condições específicas como o albinismo e a aniridia (ausência de íris) tornam a retina extremamente sensível ao excesso de iluminação, sendo necessárias lentes filtrantes especiais.

Observação: Uma vez realizada a consulta médica e seleccionados os auxílios mais adequados a cada caso, a criança deve ser treinada a usá-los para que possa se familiarizar com as vantagens e limitações desses recursos.

Quais os direitos da criança com baixa visão?

As crianças com baixa visão tem os mesmos direitos das outras crianças, principalmente frequentar uma escola para que possa desenvolver plenamente seus potenciais e sociabilizar-se.

O processo educacional e pedagógico é igual ao da criança com visão total?

Cada criança é única. Deve-se respeitar o seu tempo e a sua capacidade de entender e encarar os factos.

Uma criança mais agitada não pode ser comparada a uma criança mais retraída, pois são personalidades diferentes. Cada qual terá seu jeito de assimilar os factos.

Uma criança com baixa visão não pode ser comparada a uma criança que enxerga totalmente. Seu rendimento em classe é diferente, mas ela não deixará de aprender e de se desenvolver.

O conteúdo disciplinar que a classe recebe é único, porém, a maneira da criança absorver esse conteúdo é particular. Umas podem exigir mais horas e diferentes explicações, por parte do professor, para compreensão dos factos.

O mesmo se dá com a criança com baixa visão: o conteúdo educacional será o  mesmo das outras crianças de sua série, mas algumas poderão necessitar de um auxílio especializado do professor da classe normal ou professor especializado.

E quanto às actividades como educação física, recreio, passeios fora da escola?

Algumas crianças com acentuada baixa de visão preferirão deixar de fazer certos desportos durante a educação física. Para essas crianças, pode ser desenvolvido um programa de educação física diferente das demais.

Já no recreio, a criança deverá receber orientação inicial para conhecer bem o pátio e adquirir independência.

Nos passeios fora da escola (teatros, museus), cabe à direcção relatar a existência de crianças com alterações visuais, que necessitam chegar mais perto para ver melhor, além dos cuidados com a locomoção em ambientes desconhecidos.

As crianças com baixa visão precisarão de psicólogos ou outros profissionais?

A necessidade de psicólogos e terapeutas dependerá de cada criança, de como ela se relaciona com os colegas, a família, os professores e como assimila o aprendizado.

O oftalmologista, além do exame de rotina, deve ser uma fonte de informações para o professor sobre o uso da visão residual e a evolução futura da doença.

Como falar com os pais dessa criança?

A escola deverá orientar os pais sobre a melhor maneira dessa criança desenvolver seu potencial, em casa e socialmente.

Há necessidade de esclarecimento e troca de informações em reuniões periódicas com os profissionais envolvidos (professores de classe comum e de educação especial, oftalmologistas, psicólogos, pais).

O que o professor precisa saber do médico oftalmologista sobre a criança com baixa visão?

Primeiramente é preciso saber qual é a causa da baixa visão, onde se localiza a doença, como a doença altera a visão (limitações e potencialidades), qual é a sua evolução (prognóstico) e quais são os cuidados especiais necessários.

Com estes dados, a escola pode colaborar com o desenvolvimento da eficiência visual da criança e sua inclusão na escola e na sociedade.

A escola deverá passar por mudanças em seu ambiente físico?

Normalmente, a criança com baixa visão deverá ser capaz de passar pelos obstáculos existentes após treino com o professor. Ela deverá ser capaz de subir e descer escadas, passar por buracos no chão, passar por áreas com pouca luz etc.

Se houver necessidade de um guia, o professor ou um colega de classe poderá fazer esse papel.

Algumas medidas podem ser adoptadas, como manter as portas sempre bem abertas ou fechadas. Evitar portas entreabertas, gavetas mal fechadas, objectos espalhados pelo chão e pisos escorregadios.

O professor terá mais trabalho ao atender as crianças com baixa visão?

O papel do professor é fundamental para o desempenho da criança portadora de baixa visão. Essas crianças necessitam de mais atenção e carinho.

O professor deverá deixar a criança chegar perto do quadro negro, se for necessário; ajudar no auxílio não óptico; orientar a classe para receber essa criança e seu auxílio óptico; preparar material didáctica, quando necessário. Enfim, são várias tarefas que darão mais trabalho, mas trarão muita satisfação.

Observação: Não se deve assumir total responsabilidade pela criança com baixa visão, fazendo tudo por ela e evitando que se canse ou se machuque. Ela deve ser responsável pelas próprias acções.

A criança precisará de orientação em relação à mobilidade?

O professor de classe comum, na ausência do professor especializado, orientará a criança sobre como se locomover sozinha. Porém, se a visão for muito baixa e ela necessitar de um guia para andar, a professora e os colegas poderão servir de guia.

Como o professor deve se expressar quando a criança com baixa visão estiver na classe?

Normalmente, na nossa linguagem, utilizamos expressões coloquiais, tais como: "viu só", "você viu aquilo?", "vejo você mais tarde" - que não necessariamente estão querendo questionar se a criança viu ou não, mas se ela se deu conta ou se percebeu algo. Por isso, não há necessidade de evitar essas frases.

 

Conselhos para o professor que receberá a criança com baixa visão na classe

1) Converse com a classe sobre a presença da criança com baixa visão. Leve temas sobre o desenvolvimento visual dos seres humanos e dos animais para serem debatidos na classe.

2) Apresente a criança ao grupo e encoraje-a a responder às perguntas que porventura surgirem.

3) inclua a criança com baixa visão em todas as actividades (artes, ginástica, música). Se houver necessidade de equipamentos especiais, devem ser adaptados a cada tarefa.

4) Todas as normas de disciplina aplicadas às outras crianças devem ser aplicadas à criança com baixa visão.

5) Encoraje a criança com baixa visão a se locomover pela classe, na escola e no pátio, para que essa exploração lhe forneça informações preciosas sobre a escola.

6) Explique a rotina da classe.

7) Algumas tarefas que exigem percepção visual a longa distância devem ser verbalizadas para a criança. Ex.: feições, placares, alvos, jogos de futebol etc.

8) Providencie um canto no armário para acomodar o material que será necessário (cadernos com linhas mais grossas, foco de luz, livros com letras ampliadas).

9) Afirme para a criança com baixa visão que ela poderá pedir ajuda quando necessitar.

10) Respeite o limite da criança e, se ela não pedir auxílio, não o dê. Porém, se perceber que essa criança está deixando de fazer a tarefa por constrangimento, medo ou insegurança em pedir ajuda, converse com ela em particular e esclareça o papel do professor na classe. Se necessário, peça auxílio aos outros componentes da equipe escolar.

11) Caso haja debate na classe, mencione o nome de quem está falando. Às vezes, devido à distância, ela não conseguirá saber quem está falando e nem sempre o tom de voz é de fácil reconhecimento.

12) Algumas crianças com visão muito baixa podem apresentar certos tiques, que chamamos de "maneirismos". Por exemplo: balançar o corpo ou colocar as mãos sobre os olhos. Esse tipo de comportamento deve ser desencorajado. O professor deve estimular a criança a não praticar essa acção.

13) Se houver uma janela na sala de aula, deixe que a criança que necessita de mais luz para ler e escrever se sente próximo a ela.

14) Se necessário, providencie um foco de luz para ajudar nas tarefas para perto.

15) Dependendo da doença ocular, a criança poderá preferir menos luz para executar suas tarefas.

16) Encorajar sempre o uso da visão residual.

17) Caso a criança não consiga copiar o que está no quadro negro:
- deixe-a chegar perto do quadro;
- reforce o uso de auxílio óptico;
- entregue cópia do que será colocado no quadro;
- permita que a criança grave a aula;
- dite vagarosamente as palavras que serão colocadas no quadro;
- permita que ela copie no caderno anotações do colega;
- no computador, deixe a criança ampliar o corpo da letra tanto quanto for necessário.

18) Auxiliares não ópticos também são: letras ampliadas, números ampliados, mapas escolares ampliados, figuras ampliadas e provas ampliadas.

19) Se houver necessidade, marcar reforço extra-classe para essa criança tirar suas dúvidas fora do horário escolar.

20) Caso haja necessidade, faça prova oral em vez de prova escrita.

21) Como a criança com baixa acuidade visual pode apresentar cansaço visual, convém que o professor intercale as actividades de leitura e escrita com actividades orais.

 

O que o professor deve observar na classe para determinar se outras criança têm problemas visuais?

Em primeiro lugar, é necessário salientar que a criança dificilmente conseguirá verbalizar as mudanças visuais que ocorrem com ela. O professor deve ficar atento às seguintes manifestações:

  • Modificações físicas na área dos olhos (pupilas brancas, vesguice etc.)
  • Dificuldade de se locomover, tombos frequentes, tropeções, esbarrões nos batentes das portas.
  • Dificuldade em copiar a matéria, ler, desenhar.
  • Comportamento diferente do anterior: mais tímida, medrosa, com medo de se expor, principalmente em brincadeiras ao ar livre. Fica irritadiça.
  • Observar se a criança aproxima objectos e livros dos olhos com frequência.
  • Observar se a criança tem aversão à luz ou necessita de muita luz para suas tarefas.
  • Observar se a criança apresenta dor de cabeça, lacrimejamento ou desinteresse pelo que ocorre a uma certa distância.

Nesses casos, o professor deve comunicar à direcção da escola/pais a necessidade da criança passar por exame oftalmológico.

 

O esforço visual prejudica a visão? Acabará com o pouco de visão que resta nessas crianças?

O esforço visual não enfraquece a visão. O desenvolvimento da visão está relacionado com os estímulos visuais. Portanto, é importante deixar a criança usar a sua visão para poder desenvolvê-la. Assim, nenhum esforço visual é prejudicial ao olho, ao contrário, é um exercício para a visão, e também não acabará com o resto da visão que a criança tem.

Computador, jogos vídeo e TV são prejudiciais às crianças com baixa visão?

O estímulo visual, ao contrário do que alguns pensam, favorece a rápida compreensão da leitura. O uso de computador ou dos jogos vídeo exige um esforço visual que pode levar ao cansaço, mas não causa lesão nos olhos. A causa do cansaço pode ser o excesso dessa actividade. Da mesma maneira a televisão também não causa lesões oculares e, portanto, não prejudica a visão.

 

A criança cega ou com baixa visão pode ir para a escola comum?

A criança cega ou com baixa visão deve frequentar a classe comum pois é uma criança como outra qualquer. Só não enxerga como as outras.

Talvez também necessite de auxílio óptico especial, lentes de aumento, lupas ou telescópios que ampliam as imagens e de recursos não ópticos (letras ampliadas, canetas com traçado mais forte etc.) Além disso, o convívio com outras crianças serve de estímulo ao seu desenvolvimento global e adaptação ao mundo. Não se pode negar o convívio ao deficiente visual.

 

Ler com pouca ou muita luz prejudica a visão?

Ler com pouca luz só é mau para quem não consegue ler sem uma luz forte. O excesso ou a insuficiência de iluminação cansam e dificultam a leitura, mas não prejudicam os olhos. A fonte de iluminação não deve provocar sombras nem reflexo no objecto de leitura ou trabalho. Algumas doenças oculares provocam a necessidade de um foco de luz forte directo na tarefa que a criança executará.

 

Ler com o livro muito próximo dos olhos pode ser prejudicial para a visão?

Ler chegando perto do livro não prejudica os olhos. Por outro lado, pode ser a única maneira para poder ler.

 

Mitos

Cenoura melhora a visão?
Uma dieta rica em vitaminas (frutas, legumes e vegetais) melhora a condição física, mas não a cenoura, especificamente. São raros os casos de pessoas desnutridas ou com doenças no fígado que apresentam falta específica da vitamina A (presente na cenoura).

Pode-se fazer transplante de olho?
A única parte do olho que pode ser transplantada é a córnea. Não há possibilidade de se transplantar o olho todo.

Coçar os olhos faz mal?
É muito perigoso coçar os olhos! O olho é uma estrutura delicada, sem ossos no seu interior, por isso a pressão do dedo altera suas estruturas, levando ao aumento da pressão ocular, distorção corneana etc. A repetição desse trauma pode levar a várias doenças, inclusive ceratocone (distorção corneana).

 

Este trabalho é dedicado
a todas as crianças
com baixa visão

 

Excerto da obra "Entendendo a baixa visão - orientação aos professores"
Autores: Regina Oliveira, Newton Kara-José e Marcos Wilson
Projecto Nacional para Alunos com Baixa Visão - pnaBV
Secretaria de Educação Especial - Ministério da Educação - Brasília, 2000

Publicado por MJA [26Mai07]

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