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  textos didácticos

 

O ensino da Física e Química
a alunos com Deficiência Visual


Clara Gonçalves

1995

 

Reflexões sobre as dificuldades específicas da disciplina

Dificuldades em aspectos específicos do programa e na prática laboratorial.

 

Os dois aspectos estão interligados, dado o carácter experimental que reveste o ensino destas disciplinas e as dificuldades encontradas prendem-se com questões e dúvidas, tais como:

  • Poderá um aluno com handicap visual ser capaz de descobrir e compreender princípios científicos como resultado de um trabalho experimental?
  • Como poderão ver as mudanças de cor ocorridas nas reacções?
  • Poderão os alunos cegos fazer, com segurança, uso de aparelhos e técnicas potencialmente perigosos nos trabalhos experimentais?
  • Haverá necessidade de adquirir aparelhos especiais para os alunos participarem activamente nas experiências?

O ensino da Física e da Química, bem como o de qualquer ciência, a um aluno cego integrado no ensino regular é um desafio que tem de ser encarado com optimismo e com a convicção de que não se sairá derrotado.

A Física e a Química ajudam a compreender o mundo que nos rodeia, permitindo tomar consciência do que não pode ser facilmente representado. Assim, a aquisição e compreensão dos conhecimentos básicos inerentes a estas disciplinas é de grande importância e a sua omissão traduz uma lacuna na informação e formação do aluno deficiente visual. O seu ensino não terá como objectivo transformar os alunos em cientistas, mas fazer com que compreendam alguns factos da vida diária.

Actualmente, em vários países, os cegos estudam programação ou fisioterapia, desempenhando, posteriormente, as suas funções sem problemas. O estudo da Física e da Química e outras ciências abre-lhes perspectivas no campo da escolha de profissões. Não há razão para que um cego não seja capaz de trabalhar num laboratório químico tão eficientemente como um fisioterapeuta num hospital.

Para tal, deve dominar as bases do conhecimento e método científico e há necessidade de equipamento especial, mínimo, bom espaço de laboratório, paciência e autoconfiança. Na realidade da escola em que se trabalha não existirão as condições ideais no laboratório, mas as dificuldades poderão ser diluídas se todos estiverem empenhados.

As condições particulares do aluno devem ser tomadas em consideração e o professor deve saber que vai encontrar:

  • experiências e conhecimentos antecipados incompletos (medo de trabalhar com líquidos, fogo, gás, vidro, máquinas, etc.);
  • possibilidades de observação diferentes:
  • menos motivação das observações e desenvolvimento das técnicas;
  • dificuldades na apreciação da quantidade e qualidade dos produtos.

Por outro lado, o professor deve considerar outras possibilidades reveladas pelos alunos: aptidões para reconhecer situações físicas e químicas e compreender factos naturais; conhecimento das substâncias e suas propriedades, graças a um manuseamento frequente; possibilidade de utilizar correctamente os aparelhos e utensílios; aptidão para substituir ou compensar a falta de visão, fazendo intervir os outros sentidos, com possibilidade de interpretação; estar preparado para tomar atenção e seguir as regras de segurança.

Portanto, incutir confiança ao aluno cego é importante, como também é importante transmitir-lhe a noção de que para o êxito de um trabalho experimental há regras de segurança a respeitar e há potenciais situações de perigo a evitar. De resto, numa boa prática laboratorial é uma necessidade fundamental trabalhar com confiança com todos os alunos.

Precauções adicionais podem reduzir o risco da casualidade:

  • armários e gavetas ou áreas de armazenamento podem ser assinaladas com etiquetas em Braille;
  • todos os aparelhos devem estar no mesmo local, para deste modo os alunos saberem onde os encontrar e desenvolverem o hábito de os arrumar, depois do seu uso;
  • deve assegurar-se um espaço de trabalho suficiente, para nele se poderem mover facilmente, para poderem ter a percepção de ruídos que uma experiência pode ter associada;
  • se houver necessidade de acesso a algum aparelho e que este exija um percurso maior, é preferível recorrer a um colega que se encarregue desta tarefa: reduz os riscos e dá confiança ao aluno cego.

Deve haver uma atmosfera confiante e sossegada no laboratório, para que as perguntas possam ser respondidas e instruções ou avisos possam ser claramente ouvidos. Para tal, há que envolver toda a turma na obtenção de tais pré-requisitos.

A aproximação entre o professor e os seus alunos, em especial o aluno cego, é essencial e muitas vezes o grau de progresso desse aluno depende da personalidade do professor.

Os alunos devem ser encorajados a usar as informações que recebem através dos outros sentidos, para compensar a falta de visão.

O olfacto pode distinguir diferentes substâncias; o material de laboratório pode ser mostrado através do tacto; a audição permite obter informações várias, como a libertação de um gás.

Os outros sentidos, estando bastante mais treinados, permitem realizar um número enorme de investigações.

Adaptação de material

Existem muitos trabalhos práticos que podem ser realizados por alunos cegos; outros há que é completamente impossível. Não é, contudo, boa estratégia começar por aquilo que é impossível fazer, mas sim com o que é possível! Também, uma experiência que falha é tão importante como aquela que resulta, porque só assim se consegue mostrar ao aluno os pontos em que poderá ter errado.

A maioria dos problemas criados, na tentativa de fazer trabalhos práticos e demonstração de experiências a alunos cegos é óbvia. Regra geral, não há ajuda especial, nem aparelhos especiais construídos. Em alternativa, podem fazer-se algumas modificações simples, nos aparelhos normais de laboratório nalguns aspectos básicos.

  • Para obter medidas de comprimento, podem utilizar-se réguas em plástico, assinalando os 1/2 cm em Braille. As pessoas cegas não conseguem distinguir os mm, regra geral.
  • Métodos semelhantes de marcação são utilizados para fazer graduações de volumes compreensíveis a cegos.
  • Nas balanças, podem ser adaptadas fitas com escalas em Braille; a posição do ponteiro será determinada pelo tacto. Para balanças de precisão, tal já não é possível, na prática, pois iria causar erros de leitura.

Uma grande parte das experiências pode ser feita com o mínimo de modificações ou até sem nenhuma. Quando houver necessidade de algum equipamento adaptado para o uso do aluno cego, deverá ser analisado com ele o tipo de adaptação, a eficácia da mesma, bem como com o resto da turma, para que todos se sintam empenhados no bom funcionamento da aula.

 Equipamentos específicos

Há pequenos equipamentos específicos que facilitam o trabalho do aluno, no laboratório, como por exemplo:

  • Balança com escala graduada, em relevo.
  • Indicador de nível de líquidos. É composto por uma célula fotoeléctrica que permite, mediante som, detectar o nível que se pretende que alcance um líquido vertido num recipiente.
  • Termómetro de ambiente: termómetro adaptado, que emite sons audíveis ou vibrações tácteis. Um conjunto de sensores permite medir a temperatura ambiente e de líquidos.
  • Avisador de luz: instrumento cilíndrico e ponta cónica, provido de uma célula fotoeléctrica para captar a luz num espaço fechado, emitindo um som, cuja intensidade varia em função da luminosidade.
  • Detector de contrastes com gravador: indica o lugar onde se encontra a fonte de luz, assim como a origem da mesma. Distingue objectos com diferente contraste, tanto de dia como de noite.

Trabalho de grupo

Pequenos grupos de trabalho podem, contudo, ser de grande utilidade para situações difíceis ou impossíveis de "visualizar" a alunos cegos.

Normalmente, o trabalho experimental aos pares ou em grupos pequenos é vantajoso quando as dificuldades dos diferentes participantes são clarificadas desde o início e a tentativa de resolução exige colaboração mútua, partilhando ideias e ajudas.

Trabalhando com um colega, o aluno cego pode recordar e confrontar dados, fazer cálculos, tomar notas, enquanto o seu colega se encarrega de tarefes onde ele não pode colaborar.

É importante que, tal como os outros alunos, o aluno cego tenha, no início da aula, a informação escrita dos objectivos do trabalho experimental, do material e substâncias a utilizar, bem como a integração dos conhecimentos teóricos no aspecto prático. Instruções claras, em Braille ou em cassetes, devem estar preparadas para o aluno saber como proceder. As dificuldades, por ele encontradas na prática devem ser detectadas e resolvidas.

Em resumo:

Muitas experiências podem ser feitas por um aluno cego; outras não! Experiências há, em Química, tão perigosas para os cegos como para os normovisuais. Regra geral, poder-se-á reter:

  • Os aparelhos poderão ser modificados e/ou adaptados quando necessário e as modificações serão tão simples quanto possível.
  • As modificações devem ser igualmente aceitáveis para o uso de toda a turma.
  • Equipamentos especiais devem utilizar-se, no mínimo.
  • Os professores devem pensar e imaginar bases práticas para os alunos perceberem por eles próprios o trabalho experimental.

 

 Aspectos específicos do programa

A teoria não é mais difícil para um estudante cego do que para aquele que vê. É baseada na estrutura electrónica da matéria e um átomo descrito verbalmente ou representado por esferas não é tirado da realidade visível.

Uma equação química em Braille não será tão explícita como em negro, mas a inteligibilidade é a mesma.

As maiores dificuldades no ensino da Física e Química, para além das já mencionadas na parte laboratorial, residem nos seguintes factores:

Encontrar maneiras e meios de criar e estimular interesse na disciplina.

Conseguir eficiente comunicação de informação de outra forma, sem ser através da comunicação visual.

Os livros de texto são a solução parcial mais comum. Contudo, nem todos os livros editados se encontram feitos em Braille.

Os livros, próprios para estes alunos, parecem ser menos atractivos que os outros que têm fotografias estimulantes, cores, diagramas e, para além disso, um livro para um estudante normovisual pode corresponder a vários volumes de Braille para um estudante cego.

Contudo, o uso de livros de texto, para referência ocasional e tempo individual de leitura bem como guia de revisão, é vantajoso.

Como alternativa, muitas vezes, há que usar notas ditadas, mais do que o desejado. Cada aluno guardará as suas notas, como livro de texto auxiliar.

 Diagramas

Os diagramas são uma ajuda inestimável para a compreensão da literatura científica. Estes são cada vez mais usados em Braille e, com materiais acessíveis, podemos obter e utilizar com o aluno cego representações que permitam a compreensão de determinados conceitos. font-family:Arial">Isto é um grande auxílio e muitas vezes compensa a impossibilidade de usar o quadro, como ajuda comum visual. Há que ter a certeza de que os diagramas estão bem representados, sem grandes quantidades de informação.

Os alunos têm de ser cuidadosamente introduzidos na técnica de ler diagramas e às vezes alguma ajuda na interpretação dos mesmos é necessária com cada diagrama novo. Mesmo circuitos eléctricos mais complexos, com símbolos usuais, podem ser lidos através da sua representação. Na maioria dos casos, as dificuldades sentidas pelos alunos cegos desaparecem desde que tenham todo o material necessário em devido tempo, tenham adquirido e consolidado conhecimentos na grafia Braille e dela tenham o treino suficiente.

 Modelos em Relevo

Para tentar explicar alguns conceitos e estruturas químicas, os modelos em relevo são úteis, mas isso traria algumas desvantagens:

- Os modelos vão sendo úteis até determinado momento, mas, a partir de determinado nível de conhecimento, há que ultrapassar essa ajuda e passar a uma representação e escrita simbólica, própria da disciplina.

- Os conhecimentos adquiridos pelos alunos cegos não poderão ser diferentes: deverão ser idênticos e com o mesmo grau de exigência dos alunos normovisuais.

 O ensino da Química exige uma simbologia Braille própria. Com as várias soluções gráficas que apresenta, permite que os alunos possam escrever e reproduzir todos os modelos que os outros alunos escrevem a negro.

Poderá parecer às pessoas com visão que um esquema em relevo das fórmulas químicas seria compreensível para o cego. Mas, enquanto a visão é um sentido sintético, em que a forma é apreendida na sua globalidade antes de ser analisada em pormenor, o tacto é um sentido analítico que exige sempre um grande esforço de abstracção e síntese; logo, não permite "ver" em perspectiva.

Para alunos com conhecimentos mais avançados e já depois de ter uma experiência vasta na exploração de modelos que interpretam a posição dos átomos nas moléculas, uma representação em relevo feita no plano pode ser explícita. No entanto, antes deve ser ensinado a fazer a transposição da representação a 3 dimensões para a representação a 2 dimensões, por abstracções sucessivas.

Tudo se passa de modo idêntico aos restantes alunos, que têm que aprender a interpretar a representação de moléculas mais ou menos complexas, feitas no plano.

Dado que átomos e moléculas são de reduzidas dimensões e as partículas constituintes, como os electrões, núcleos atómicos, são ainda de dimensões inferiores às dos átomos, estando em constante movimento, a possibilidade que existe é a de definir estatisticamente zonas onde é mais provável encontrar os electrões e as posições de equilíbrio dos núcleos atómicos. Assim, todas as fórmulas químicas existentes não sugerem a realidade e limitam-se a ser imagens de realização material possível, adoptadas e concebidas pelo Homem.

Do mesmo modo, também a representação química em Braille é a tradução esquemática dessas imagens, num código diferente do visual - código adaptado ao tacto.

 

A grafia química braille

A grafia química Braille permite, igualmente, a escrita da representação de:

  • átomos ou grupos de átomos que constituem as moléculas;
  • indicação do tipo de ligação entre átomos ou grupos de átomos;
  • a escrita de equações químicas que representam reacções químicas;
  • a explicação da estrutura dos grupos funcionais.

Enfim, um bom conhecimento da grafia Braille, permite a qualquer aluno cego adquirir todos os conhecimentos que qualquer outro aluno normovisual obtém.

O ensino das disciplinas de Física e Química é difícil, dado a sua especificidade e as limitações dos alunos inerentes à sua deficiência, mas não impossível.

Com as sugestões apresentadas a nível de adaptação de materiais, de planificação e preparação de material prévias para as aulas, duma boa preparação e domínio da grafia Braille, poderá ser gratificante o ensino e a aprendizagem destas disciplinas.

 

"Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns."

("Impressão Digital", in Poesias Completas, António Gedeão)
 

Ж

Clara Gonçalves
Agosto1995


 


Publicado por MJA