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O desenvolvimento motor da Júlio Damas Paiva Outubro 1981
O material científico para a educação da criança cega é difícil de obter. Os trabalhos publicados têm uma circulação limitada dentro de comunidades académicas estrangeiras. Estudando o que de pouco havia sobre o assunto, observando o desenvolvimento das crianças, ouvindo as diferentes soluções que os pais tinham encontrado para educar os seus filhos cegos, realizámos o texto que a seguir se apresenta e que tem uma característica essencialmente prática e que aqui nesta revista, contém unicamente os aspectos relacionados com o movimento. Os primeiros movimentos Pondo de parte os movimentos reflexos que a criança apresenta ao nascer e que progressivamente vai perdendo, debrucemo-nos sobre os movimentos voluntários das primeiras semanas de vida. A criança quando se encontra deitada de costas, movimenta livremente as pernas e os braços no que poderemos chamar os quatro cones de espaço. Começa a receber informações, através dos seus receptores cinestésicos, da localização dos seus membros e ao mesmo tempo a conseguir a ideia das linhas exteriores dos seus braços e pernas ao contactar com a roupa e objectos que a envolvem. Com as crianças cegas, é necessária uma ajuda exterior. O acariciar dos seus membros pela mãe, quer com as próprias mãos quer com uma toalha, é uma das formas aconselhadas. Estas actividades são particularmente importantes por volta do terceiro mês, altura em que as crianças com visão começam a olhar para os seus pés e mãos, a tomar consciência de que os seus membros fazem parte do corpo. Com as crianças cegas teremos de lhes facilitar, conduzir e ensinar a "olhar" para os seus membros de modo a não perderem esta etapa fundamental. A etapa seguinte nas crianças com visão, é o rodar sobre si lateral e facialmente, altura em que começam a conhecer os grandes planos do seu corpo frente, trás e lados. Estes movimentos, ainda considerados semi-automáticos, não são efectuados pelas nossas crianças cegas, muito especialmente porque tudo o que está à sua volta não lhes desperta interesse. Não rodam o corpo, porque para o fazer teriam antes, de rodar a cabeça, e não estão motivadas para o fazer. Não procuram com as mãos, porque não encontram razões para tal comportamento. Entre o 4.º e o 5.º mês, os pais deverão ajudar a criança a rodar sobre si. Esta ajuda deve ser realizada com muito cuidado, segurando a cabeça e com um contacto muito íntimo da mãe. Nos meses seguintes, 6.º e 7.º, estas mudanças de posição devem ser realizadas várias vezes ao dia. Também, por volta do 4.º e 5.º mês, a criança com visão começa a manipular as mãos, a juntá-las à frente do seu corpo e observar os seus movimentos. Com as nossas crianças cegas, devemos tentar que isto aconteça, por uma transposição do contacto com as nossas mãos para as suas próprias mãos. O mesmo acontece com os pés nos seus contactos. Estes movimentos devem ser guiados com a ajuda dos pais. No decorrer deste processo, é de toda a conveniência que a criança tenha o máximo de liberdade para que execute estes movimentos. Liberdade quer na roupa com que está vestida, quer na roupa que a tapa. A roupa deve ser solta, não muito grossa e com um cone funcional. Os tradicionais e muito usados babygrows, estão totalmente desaconselhados porque, a criança vai crescendo, o babygrow vai-se lavando, vai perdendo a sua elasticidade, já não dá de si, e consequentemente vai não só entravar os movimentos, como colocar o pé em posição de flexão máxima, podendo dar origem ao pé plano. Um outro defeito que se encontra nesta altura, é o envolver a criança numa manta, que até toma o nome de "envolta". Também é costume prender-se a roupa da cama, outro processo desaconselhável. Pergunta-se então como se deve cobrir? Julgamos que o mais indicado será o uso de um saco de dormir largo e comprido. O sentar Por volta do 6.º mês, a criança cega deve ser ajudada a sentar-se. Ainda aqui e por breves momentos, com a ajuda da mãe, que deve acompanhar e abraçar com o corpo esta posição. Depois, com a colocação de almofadas, de forma a proteger as costas e principalmente a cabeça. Nesta posição há que colocar objectos atractivos à sua frente de modo a sentir satisfação na passagem para um novo plano. Um outro aspecto atractivo e compensador é o alimento. Será de colocar a criança então, nesta posição, na altura da refeição. Esta posição de sentado tem algumas variantes, tais como, sentado com a ajuda do adulto, com ajuda de almofadas, com apoio à frente, inclinado à frente e com costas direitas. A maior parte da literatura especializada aconselha a não adiantar muito a aquisição desta posição, e sim atingi-la quando a criança o desejar, muito especialmente porque o acelerar poderá dar origem a numerosas anomalias e deformações posturais impossíveis de rectificar depois. Consideramos que se a criança cega esteve bastante tempo na posição de deitado facial, se gatinhou e se a passagem do plano horizontal para o plano vertical foi realizada na companhia do adulto, então poderá ser deixada sentada livremente. Aqui é importante que toda a musculatura posterior do tronco e da cabeça, esteja em condições de sustentar este novo equilíbrio. Especialmente ao princípio, a criança não gosta de estar muito tempo sentada. Torna-se, então, necessária a presença afectiva do adulto com palavras, canções e brincadeiras. Pouco a pouco vai-se deixando ficar sozinha, mas nunca por muito tempo. Se se sentir cansada, é preferível colocá-la na posição anteriormente adquirida. O andar de gatas A partir do 8.º mês, deverá tentar-se um início da posição de gatas em que a mãe suporta a barriga e a cabeça. Esta nova posição é pouco atractiva e a criança reage bastante a ela. Só por volta dos 12 meses é que começará a gatinhar, movimento fundamental para a criação de uma boa atitude e motivador para a exploração do espaco. Encontra-se nas crianças cegas grande dificuldade nesta fase. A maior parte passa pela fase de andar de gatas sem a realizar, e verificam-se grandes atrasos no andar, conseguindo-o a maior parte só a partir dos 2 anos. As razões porque não gostam do gatinhar são as seguintes:
O andar de gatas é o ponto de partida para a coordenação dos movimentos do andar de pé, com a sua alternância de movimentos braços pernas. Não nos esqueçamos que a criança vai começar a gatinhar quando quiser ir de um lugar a outro. Aqui teremos de arranjar soluções para que sinta motivação para o fazer. Começa, então, a preocupação do futuro da mobilidade da criança. Analisemos o que acontece com os nossos cegos jovens ou adultos: caminham devagar, parecem estar cheios de medo, aparentemente esperando o contacto com obstáculos no seu caminho. Este medo é consequência de experiências prévias em que houve contactos, lesões. Observe-se que há também uma relação entre o andar seguro, o andar depressa e a ansiedade. Os cegos que apresentam grandes preocupações, grande ansiedade, andam devagar, andam com medo. Parece-nos haver uma certa relação entre medo, andar depressa e mobilidade correcta. Acreditamos que se conseguirmos bastante cedo ensinar a criança a movimentar-se no espaço dum modo que não seja frustrante, nem resulte perigo ou lesão, dar-lhe-emos uma melhor atitude quer motora quer psicológica. Arranjo do espaço para o movimento Para que a criança sem visão possa sentir atracção pelo ambiente que a envolve, de modo a movimentar-se no espaço, é necessário transformar o silêncio em sonoro. Campainhas, brinquedos sonoros, devem ser dependurados por cima do seu berço, nas portas e janelas. Igualmente distribuídos no espaço, devam existir obstáculos acessíveis - almofadas, caixas de cartão (de aparelhos de telefonia ou televisão) abertas ou fechadas, de modo à criança passar por cima e por dentro, aquirir a posição de pé, tomar conhecimento das coisas que estão a sua volta e como ponto de partida para o conhecimento do seu corpo. Condições para o movimento Quando a criança começa a rodar de um lado para o outro e o berço não permite movimentos mais amplos, há que passá-la para o parque. Não se pode determinar a altura precisa para essa passagem. Será uma consequência do seu desenvolvimento motor. Que faz a criança no parque? Brinca sentado, desloca-se de gatas, põe-se de pé e tenta aí os seus primeiros passos livres. Assim o parque pode ser considerado como um terreno de movimentos e de ginástica autónoma. Os parques que aparecem no mercado são os quadrados de 1 metro, ou mais actualmente os redondos. Parece-nos que o mais aconselhável é o quadrado ou rectangular, porque estas formas se parecem mais com a realidade do exterior, e com medidas superiores a 1 metro, mas que não ultrapassem o 1,5 metro. 0 melhor será o de 1,20 por 1,20. Logo que a criança sai do parque, há necessidade do quarto ou sala onde se vai movimentar, estar em parte coberta com alcatifa, tapete ou manta, de forma a haver uma referência segura. Nesta sala não devem existir móveis que possam voltar-se quando a criança os agarra para se levantar. O mobiliário deve ser tão pesado que resista ao empurrão da criança ou tão leve que se tombar não a magoe. Nos berços os colchões devem ser firmes, de material que não afunde de modo a impossibilitar os movimentos da criança. Quanto ao parque deve ser colocado num solo de madeira, coberto com uma manta que se prende com o peso do próprio parque. Atitude posição da cabeça Em relação aos padrões da criança com visão, a criança cega apresenta problemas que são indicativos de uma deficiência da imagem corporal. Uma destas tendências é a de não conseguir manter uma atitude correcta quando sentada ou de pé. Para resolver este problema e como já atrás fizemos referência, é importante que a criança "não esqueça'' de passar pela posição de deitado facial, fundamental para se fazer todo o fortalecimento dos músculos posteriores do corpo. No trabalho de observação que vimos realizando, o tempo e o número reduzido de crianças, não nos permitiu ter uma certeza científica da importância desta atitude. No entanto, as mães de crianças que andam de cabeça baixa, com má atitude, todas nos dizem que os seus filhos nunca gostaram de estar deitados facialmente. Educação das mãos A criança cega tem dificuldade em utilizar as suas mãos que tão necessárias irão ser no seu futuro. Algumas apresentam bastante rigidez nos braços e mãos, que estão quase sempre fechadas e com os polegares para dentro. Frequentemente têm receio de tocar em objectos que não conheçam. Por vezes rejeitam tudo o que se põe nas suas mãos. Se se habituam a um determinado objecto, só querem este e não outro. Quando uma criança cega não sabe utilizar as suas mãos há necessidade de lhe mostrar as possibilidades que possuem muito especialmente à base de sons que podem realizar: arranhar, agitar, bater, friccionar, etc. A ligação com o mundo através das mãos não vai acontecer por acaso, mas sim com ensino e orientação. A criança com visão é motivada pelo que vê e pelo que quer. A criança cega deve ser motivada para alcançar o que está à sua volta através de movimento. Se não se movimentar, não vai conhecer coisas novas. Acção da mãe Atribui-se uma grande importância ao papel educador da mãe (ou quem a substitua), à sua acção que irá influir directamente na aquisição de atitudes e movimentos correctos. Ainda que actualmente alguns educadores se inclinem para que a criança aprenda os primeiros movimentos sem intervenção directa do adulto, com a nossa criança cega isso não pode acontecer. Todo o seu desenvolvimento passa por um contacto muito íntimo com o corpo da mãe. Podemos considerar que este corpo é o primeiro "objecto" com que a criança vai brincar. Os braços, as pernas, o tronco, a cabeça da mãe, vão ser manuseados, explorados nos primeiros movimentos que a criança vai executar. A mãe, o pai, quem brincar com a criança, vai ter necessidade de se colocar ao seu nível. Se ela está deitada no solo, temos também de nos deitarmos, de estar à mesma altura, quase um face a face em que seja possível à criança estender o braço e sentir o rosto do outro. A passagem à fase de sentado tem de ser realizada através do colo da mãe. Mesmo já com a criança sentada no solo o corpo da mãe não deve imediatamente deixar de contactar com o da criança. Quando se passa a criança para uma cadeira de bébé, não se pode deixá-la lá sozinha. A transposição é lenta e sempre em companhia do adulto, com tempo de colocação curto, que vai progressivamente aumentando, diminuindo o tempo de companhia da mãe. Aquando da utilização de um novo brinquedo do género do andarilho, ou qualquer veículo de rodas, a criança cega é sistematicamente relutante. Aqui a paciência e o saber da mãe tem grande influencia. Há toda a conveniência, em lhe mostrar o novo brinquedo, que ela o explore, que saiba para o que serve, e que isto seja realizado numa altura que a criança possua a boa disposição necessária. Por outro lado, a insistência é fundamental. A mãe não deve desistir logo à primeira, e esta insistência deve ser, como vulgarmente chamamos, delicada. Um outro aspecto importante, é a ausência ou presença da mãe em termos sonoros. A criança com visão colocada no seu berço ou parque, segue com os olhos a sua mãe, sente a sua presença. A mãe da criança cega necessita, no seu deambular doméstico, de manter um contacto sonoro. Ou pela voz, ou com ruído da tarefa que está executando. Sugestões práticas Os primeiros conhecimentos:
Controle da cabeça
Estimulação do sentar Com a criança sentada ao colo da mãe, brincar, cantar, falar, dar de comer. Tentar dar a perceber e associar que as coisas que ela gosta realizam-se nesta posição. Quando já alcançou o controle da cabeça, encostá-la a um canto da sala, ou no solo no canto da sala protegida com almofadas. Quando as costas estiverem mais fortes e a cabeça controlada, colocá-la por períodos curtos numa cadeira que a ampare por trás e pelos lados, mas que deixe a cabeça à vontade. Sentada dentro de um pneu de automóvel com alguma protecção na região lombar. Colocar objectos dentro e fora do pneu. Para conseguir a posição de sentado sem protecção a criança deve controlar os movimentos para a frente, trás e lados. Isto consegue-se se a colocar mos facialmente sobre uma grande bola, ou na falta des a sobre um rolo feito com vários cobertores. MobilidadeOrientação
Estimulação das mãos
Este artigo foi publicado na LUDENS Vol. 6, N.° 1 - Out./Dez. 1981
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